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Ciro Sanches Zibordi

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Lavar pés ou pregar o Evangelho?

Ter, 16/06/2015 por Ciro Sanches Zibordi

Li alhures que um certo pastor — não me pergunte o nome dele, por favor — “lavou os pés de gay, mãe-de-santo, ateu e outros que sofrem com o preconceito dos evangélicos”. O texto sugere que o tal ato foi exemplar, uma vez que muitos evangélicos têm sido preconceituosos. Ademais, o texto exalta a conduta do pastor, colocando-o, por assim dizer, em um pedestal, como se ele, sim, tivesse amor pelos pecadores e compromisso com o Evangelho. Menos, gente, menos...

É verdade que o Senhor Jesus, ao andar na terra, lavou os pés de algumas pessoas. E, quando fez isso, afirmou: “Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.14,15). Penso que Ele não teve como objetivo instituir a cerimônia do “lava-pés”. Mas, se alguém desejar tomar essa passagem como base para fazer isso, deve, antes, responder a duas perguntas: (1) O Mestre lavou os pés de quem? (2) Com qual propósito Ele fez isso?

A bem da verdade, o Senhor Jesus não saiu pelo mundo lavando os pés de todos os tipos de pecadores para demonstrar que os amava. Ele só lavou os pés de pessoas em uma única ocasião (Jo 13.1-15). No versículo 5 está escrito que Ele “pôs água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos”. Nesse caso, se algum pastor quer lavar os pés de alguém com base no ato de Jesus, que lave os pés dos seus dis-cí-pu-los, e não dos pecadores, de modo geral (cf. também 1 Tm 5.10).

Fica claro, quando lemos a mencionada passagem neotestamentária, que o Senhor Jesus não quis instituir o “lava-pés”, e sim ensinar aos seus discípulos que eles devem ser humildes, respeitando uns aos outros. Afinal, se Ele, como Mestre e Senhor, lavou os pés de seus liderados, por que deveríamos nos ensoberbecer e pensar que somos melhores do que os que ouvem nossos ensinamentos e orientações?

No texto que li, alhures, sugere-se que os evangélicos são preconceituosos e não amam os pecadores quando pregam contra o pecado. Entretanto, agradar os pecadores, apresentando-lhes uma mensagem ecumênica, é mesmo uma demonstração de amor, à luz do que ensinou o Mestre dos mestres? Penso que não, pois os evangélicos que se prezam — à semelhança do Senhor Jesus — devem pregar os que os pecadores precisam ouvir, o autêntico Evangelho, e não um evangelho pragmático, isto é, o que os pecadores querem ouvir (cf. Mt 23; Jo 4).

Jesus Cristo não disse que devemos abrir mão da verdade para pregar uma mensagem suave, que agrade os pecadores. Na verdade, Ele disse que a porta para a salvação é estreita (Mt 7.13,14). Já o ato de lavar os pés de representantes de diversos segmentos — ao que me parece — é, na verdade, um ato ecumênico, que visa a agradar as pessoas, em vez de lhes apresentar o Evangelho como ele é. Segundo o Mestre, João Batista foi um pregador exemplar (Mt 11.11). Por quê? Ele lavou os pés dos pecadores? Não! Ele foi um amigão dos que zombam da verdade? Não! Mas “tudo quanto João disse deste [Jesus] era verdade” (Jo 10.41). E a pregação dele era bastante contundente: “Arrependei-vos” (Mt 3.2).

Paulo é um paradigma, um referencial para a Igreja, um imitador de Cristo (1 Co 11.1). Depois do Senhor Jesus, sem dúvida, esse apóstolo foi o maior exemplo de pregador, pastor e mestre que já andou na terra. E eu lhe pergunto, caro leitor: Quantas vezes Paulo lavou os pés dos pecadores e hereges? Lavou ele os pés dos filósofos epicureus e estóicos, em Atenas? Quantas vezes ele deu razão aos oponentes do Evangelho e lhes pediu perdão por causa de sua pregação "ofensiva" e "preconceituosa"? Infelizmente, há muitos "bispos" e "pastores" por aí que abraçaram o evangelho ecumênico, pragmático e relativista da pós-modernidade. Ou, talvez, estão querendo aparecer e mostrar que são mais santos do que os outros...

Portanto, de que adianta lavar os pés de gays, ateus e representantes de religiões, se não lhes apresentarmos a verdade da Palavra de Deus? Preguemos, pois, o Evangelho como ele é. Esta, sim, é a maior demonstração de amor ao pecador. ‪#‎FicaADica‬.

Ciro Sanches Zibordi

3 comentários

João Batista Alves da Silva

Pastor, Ciro. Concordo plenamente com suas palavras. Pecado é pecado. A igreja precisa ter uma posição firme em suas convicções. Que história é essa de sair por aí lavando pés de gays, ateus, etc. Eles precisam ser confrontados com a verdade do Evangelho. É o mesmo caso de certas igrejas cederem o microfone para políticos ímpios falarem com suas moções de aplauso. Banalizam o culto e o ímpio não respeita o momento. Precisamos com amor confrontar essa sociedade pecaminosa. Parabéns.

carlos nunes

Parabéns o tema é muito atual, é mais um modismo, muitos pastores querem retratar uma humildade que está só no ato bem explicito e não no coração reservado sem trombetas, estão preocupados em agradar as pessoas com um evangelho da conveniência. Acho que ao invés lavar os pés para aparecer deveríamos pedir ao Senhor que lave as vossas mentes de toda malícia. Muito bom o assunto e acho que deveria colocá-lo para debate . Pr Carlos Nunes - IBI Missão Socorro.

jesse vieira da silva

Esses "exercícios" eclesiásticos que vez por outra surge em nosso meio é o resultado de um equivoco quanto ao real e fecundo Evangelho de Jesus Cristo. Esses rituais que beiram o ridículo e chamam a atenção de tantos cristãos que por não preferirem a rotina da assiduidade do aprendizado da Palavra acabam se tornando reféns dos espetáculos que se apresentam como sendo coisa Santa. No entanto, nada! Nada será capaz de substituir o que a Palavra tem para nos ensinar em nossa caminhada para frente.

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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