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Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

O que a Teologia pode aprender da Ciência

Qua, 05/07/2017 por

Há pouco mais de um ano postei meu último texto. Os que me acompanham sabem que tive um problema de saúde e que também estive envolvido em dois grandes projetos literários (O Sermão do Monte — livro e revista — e Pentecostalismo e Pós-Modernidade). Hoje, lendo a coluna Horizontes do cientista brasileiro Marcelo Gleiser, senti-me estimulado a voltar a postar. Gleiser parou de publicar sua coluna em 2014 e reiniciou uma nova temporada neste final de semana na Folha. Como não poderia deixar de ser, ele voltou em grande estilo e está abordando um assunto que tem íntima relação com as sete últimas postagens desta coluna. Não obstante, retorno com um assunto diferente que está na ordem do dia em nosso meio pentecostal: A relação da espiritualidade com a teologia, ou seja, de um lado a “fé” e, do outro, a “razão”. Questão importante, pois o fanatismo e o formalismo são polos perigosos. A despeito de o pentecostalismo estar vivendo este estágio, a teologia enquanto “ciência da fé” ainda não conseguiu decidir-se inteiramente em relação à ciência e, muito menos, ela mesma, enquanto “ciência”. A discussão se arrasta há séculos e ultimamente tem se intensificado em solo brasileiro, pois a teologia é curso superior e o local de maior concentração de seus “profissionais” é a igreja. Nisto reside o problema, pois de um lado existe um grupo que acredita ser sua obrigação questionar o depósito da fé visando adequar sua linguagem; de outro, há aqueles que passam por cursos que praticamente vendem o diploma e o futuro bacharel em teologia não obtém mais conhecimento que o aluno assíduo da Escola Dominical.

Assim, a discussão é legítima posto que, conforme afirma Hans Küng, “Só uma teologia que se move no horizonte atual de experiência, uma teologia rigorosamente científica e aberta ao mundo e ao presente, pode justificar seu lugar na universidade ao lado de outras ciências” (Teologia a caminho, p.232). Tal deve ser dessa forma, pois “é bem verdade”, diz Bernard Lonergan, “que a teologia não é nem fonte de revelação divina, nem um acréscimo às Escrituras inspiradas, nem uma autoridade que promulga doutrinas eclesiásticas” (Método em Teologia, p.367). Entretanto, diz o mesmo autor, “é verdade que o teólogo cristão deve ser um ser humano autêntico, inigualável em sua aceitação da revelação, das Escrituras e da doutrina de sua Igreja” (Ibid., pp.367-68). A questão, neste aspecto, parece dizer respeito mais ao lugar de cada um e ao respectivo papel que cabe ao teólogo acadêmico e ao teólogo de igreja. O que fazer, no entanto, quando ambos são a mesma pessoa? Basta lembrar que primeiro é preciso libertar-se da ideia de que “o teólogo é apenas um papagaio que nada tem a fazer senão repetir o que já foi dito” (Ibid., p.368). Com isto em mente, tanto o teólogo de academia quanto o de igreja tem a consciência de que há uma tarefa a cumprir. De mais a mais, se se quer reconhecimento universitário, é preciso entender a necessidade de uma relativa autonomia da “ciência da fé”.

A esse respeito, Lonergan diz que “pode-se julgar arriscado para a autoridade dos superiores eclesiásticos reconhecer que os teólogos podem dar uma contribuição própria, que eles são autônomos, que têm à sua disposição um critério estritamente teológico e que lhes cabe uma responsabilidade que será cumprida de maneira mais eficaz pela adoção de um método e pela tentativa gradual de aprimorá-lo” (Ibid., p.369). Todavia, completa o mesmo autor, “a autoridade dos superiores eclesiásticos nada tem a perder com o que foi proposto, mas muito a ganhar”. E como? — alguém pode perguntar. “Nada se perde quando é reconhecido o fato histórico, tão óbvio, de que a teologia tem algo a oferecer”, e completa dizendo que “Muito se ganha com o reconhecimento da autonomia e com a indicação de que essa autonomia acarreta responsabilidades”. Sim, o patrulhamento cerrado tira a responsabilidade. Por isso, finalmente, diz Lonergan, “as responsabilidades conduzem ao método, o qual, se eficaz, torna supérfluo todo trabalho de policiamento. Os superiores eclesiásticos têm o dever de proteger a religião sobre a qual refletem os teólogos, mas é a estes últimos que cabe transformar a doutrina teológica numa questão consensual, a exemplo do que se dá em qualquer outra disciplina acadêmica consagrada” (Ibidem.).

Por último, explica Lonergan, “uma distinção entre a teologia dogmática e a teologia doutrinária pode servir para colocar no centro das atenções os pontos que temos incessantemente afirmado” (Ibid., pp.369-70). Explicando uma e outra, ele diz que a “teologia dogmática é classicista”. Isto significa que, “Acerca de cada problema, ela costuma dar como certa a existência de apenas uma proposição verdadeira. Cabe-lhe determinar quais proposições únicas condizem com a verdade. A teologia doutrinária, por sua vez, tem mentalidade histórica. Ela sabe que o significado de uma proposição só é determinado em um contexto específico. Ela sabe que os contextos variam de acordo com os vários tipos de senso comum, com a evolução das culturas, com as diferenciações da consciência humana e com a presença ou ausência de conversão intelectual, moral e religiosa. Como consequência, diferencia a apreensão religiosa da apreensão teológica de determinada doutrina. A apreensão religiosa se dá no contexto do senso comum do indivíduo, no contexto de sua cultura, no contexto de sua diferenciação ou indiferenciação de consciência, no contexto de seus próprios e incessantes esforços para alcançar a conversão intelectual, moral e religiosa. A apreensão religiosa das doutrinas, por sua vez, é histórica e dialética. É histórica, pois apreende os vários contextos diferentes em que, de diversas maneiras, a mesma doutrina foi expressa. É dialética, pois percebe a diferença entre as posições e as contraposições, buscando desenvolver as primeiras e reverter estas últimas” (Ibid., p.370).

O que se conclui, é que há lugar para ambos os teólogos, sejam os acadêmicos sejam os de igreja. Precisa-se da teologia dogmática e também da doutrinária. Não apenas isso, a teologia precisa aprender com a ciência. Sobretudo, com a ciência que, após a descoberta das teorias da relatividade e dos quanta, descobriu-se menos absoluta e mais aberta ao fato de que sua proposta é apenas mais uma narrativa e não algo irretocável. À pergunta: “Quais são, portanto, as influências filosóficas da teoria da relatividade?”, o físico Richard Feynman, responde: “Se nos limitarmos às influências no sentido de que tipo de ideias e sugestões novas são oferecidas aos físicos pelo princípio da relatividade,  poderíamos descrever algumas delas da seguinte maneira. A primeira descoberta é, essencialmente, que mesmo aquelas ideias em que se acreditou por um longo período e que foram verificadas com grande precisão podem estar erradas. Foi uma descoberta chocante, é claro, que as leis de Newton estão erradas, após todos os anos em que pareciam exatas. Está claro que os experimentos não estavam errados, mas foram realizados apenas sobre uma faixa limitada de velocidades, tão pequena que os efeitos relativísticos não teriam sido evidentes. Mesmo assim, temos agora um ponto de vista bem mais humilde sobre as nossas leis físicas — tudo pode estar errado!” (Física em 12 lições fáceis e não tão fáceis, p.232). Será que a teologia terá humildade para aprender com a ciência? Será que a teologia pode ser menos pretensiosa a respeito de seus arrazoados e desconfiar de suas próprias pressuposições e conclusões? Isso em se tratando não apenas da teologia de igreja, mas, sobretudo, a acadêmica. Tomara que sim, pois desse exercício dependerá sua respeitabilidade e ressonância.
 

7 comentários

Thiago Silva

A Paz do Senhor Jesus Pastor César! Este tema é muito sugestivo, pois, nos leva a uma reflexão da nossa vida cristã. E falo isso devido a falta de equilíbrio que temos visto no nosso meio evangélico, onde muitas vezes a razão da lugar ao formalismo, e de contra partida a espiritualidade acessiva pode propocionar uma lacuna para o fanatismo. Vejo que a teologia e a ciência são de suma importância para o crescimento e a maturidade do cristão, o que nos leva a experiência, pois, devemos crescer na graça e no conhecimento. Que Deus continue te abençoando Pastor César, te admiro muito, tu és um referêncial para mim. Paz!!!

João Paulo

Prezado Pr. César, saudações. Sobre as perguntas finais, pode-se pensar, parafraseando Roldán: "o que fazer quando propostas científicas válidas ameaçam o sistema teológico que adotamos?". Rejeitar a ciência sob argumento de ser "mundana, falsa, diabólica, pós-moderna" ou reconhecer que pode haver erro no pressuposto teológico e ousar pensar sua correção. A última proposta com certeza é insuportável para muitos, pois reconhecer um equívoco pode, pensam alguns, prejudicar o todo (menos poder).

Rafael Luz

Graça e Paz César, parabéns pela oportuna reflexão. Reconheço que o convite à humildade é indispensável para o labor teológico, entretanto, julgo ser esta uma tarefa dificílima àquela que, pelo menos dentro de nossos arraiais (por seus intérpretes), continua sendo aclamada como a "Rainha de todas as ciências". Considerando que "teologizar" é um labor essencialmente humano, logo contextual e circunstancial, justificasse esse maravilhoso convite a humildade dialogal.

Rafael Luz

Graça e Paz César, parabéns pela oportuna reflexão. Reconheço que o convite à humildade é indispensável para o labor teológico, entretanto, julgo ser esta uma tarefa dificílima àquela que, pelo menos dentro de nossos arraiais (sobretudo por seus intérpretes), continua sendo aclamada como a "Rainha de todas as ciências". Considerando que "teologizar" é um labor essencialmente humano, logo contextual e circunstancial, justificasse esse maravilhoso convite a humildade dialogal.

ALEXANDRE P NUNES

Ambas se completam ! O inverso serve como base no eixo da busca, a dogmática mantém sólida os pilares, antes nunca removidos, a doutrinária mostra que a bases que não foi muito bem esclarecidas tem proposta na busca do equilíbrio !!!

Ademar Baum Filho

Paz do Senhor Pastor César, pelo que entendi, as duas teologias a teologia dogmática e a teologia doutrinária tem visões diferentes de respostas a problemas por seus princípios, mas a própria ciência baixou a guarda ao redescobrir algumas novas respostas a questões que tinha como respondida, correta e inerrante. Ou seja, a humildade é a melhor saída para aprendermos um pouco mais.

Sérgio Luís

Pr. César, a paz do Senhor. Prezo suas melhoras. O assunto em pauta pode gerar controvérsias; “da discussão vem a luz", alguns dirão: a luz é JESUS!(e isso com muita propriedade) Outros dirão: Jesus É A LUZ.(também com muita propriedade). Ou seja, alguns defendem a exclusividade da bíblia como fonte teológica,e outros entendem que a bíblia seja principal fonte teológica juntamente com outros tratados.

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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