Colunistas

Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

O Big Bang, o Universo Eterno e o Criacionismo — Parte 7

Seg, 06/06/2016 por

Em outras oportunidades, essa coluna já abordou a questão dos diversos “Criacionismos”, mas apenas mencionando-os. Diante do que está sendo discutido, cabe agora analisar tais modelos criacionistas, expondo-os para que se vislumbre a abrangência e a seriedade do tema. Na coluna anterior, discutiu-se o problema da hermenêutica, ou seja, a forma de interpretação dos textos dos relatos da criação. Essa introdução deu o tom da complexidade do assunto, ainda que alguns o tenham como algo resolvido. Na verdade, como afirma Phillip Johnson, a questão de como Gênesis deve ser interpretado “é matéria de debate muito animado, mesmo nos círculos mais conservadores do movimento evangélico” (As perguntas certas, p.51). Assim, prescrever às pessoas, sobretudo acadêmicos, que “devem aceitar uma posição a priori”, não é apenas uma forma não inteligente de promover alguma coisa, mas uma prova de que aquela “verdade” não se sustenta por si, antes precisa de pressão dogmática e, em alguns casos, até de violência para impor-se. O conflito maior se dá com as gerações mais novas que, inseridas nas universidades, ou caem no ridículo ou sucumbem à descrença. Nosso povo precisa aprender que, como apropriadamente diz Johnson, “liberdade acadêmica não é um luxo, mas uma necessidade na educação superior” (Ibid., p.52). Assim, dar esse assunto como “algo resolvido”, revela algumas coisas: 1) desconhecimento; 2) preguiça ou inércia em relação à pesquisa e 3) desonestidade intelectual. A seriedade a ser considerada é que, cada tipo de criacionismo, depende da forma como se interpreta o Gênesis.

 

No prefácio à obra As perguntas certas, de Phillip Johnson, Nancy Pearcey, enumera seis grupos que, de alguma forma, podem ser classificados como “criacionistas”: “criacionistas da terra-jovem, criacionistas da terra-antiga, geólogos do dilúvio, criacionistas progressistas, teóricos do intervalo e evolucionistas teístas” (p.6). Em nota, o editor explica cada um dos modelos: “Criacionistas da terra-jovem: os que defendem que a terra foi criada há alguns milhares de anos; Criacionistas da terra-antiga: os que argumentam que a terra foi criada há bilhões de anos; Geólogos do dilúvio: aqueles que pesquisam evidências de um dilúvio universal; Criacionistas progressistas: os que defendem que a criação se deu por etapas; Teóricos do intervalo: aqueles que sustentam que houve um intervalo entre Gênesis 1.1 e 1.2; e Evolucionistas teístas: os que sustentam que ocorreu uma evolução sob o controle de Deus” (Ibid.). O que todos esses grupos têm em comum é o fato de crerem que a origem do universo é uma iniciativa divina e não o produto final de interações cósmicas e químicas do acaso (geração espontânea). Dissertando acerca da “Criação do Universo e da Humanidade”, Timothy Munyon, afirma que, de “modo geral, os cristãos evangélicos seguem um dos quatro modelos seguintes, que buscam harmonizar a revelação especial de Deus (a Bíblia) com a revelação geral (o que observamos no Universo) [...]: (1) evolução teística; (2) teoria da lacuna, ou conceito da ruína e reconstrução; (3) criacionismo fiat, conhecido também por teoria da Terra jovem; e (4) criacionismo progressivo, denominado teoria do dia-época” (Teologia Sistemática, p.231). Apesar de os referidos grupos serem apenas variações do que acima já foi elencado, Munyon, após expor panoramicamente o que propõe cada um, apresenta objeções que podem ser feitas, científica e biblicamente, a cada um deles e faz uma observação interessante: “Seria útil [...] se os proponentes de todos esses modelos reconhecessem que as Escrituras realmente não falam de modo tão específico a apoiar integralmente um modelo” (Ibid., p.241). Isso até mesmo porque, como defende a tradição cristã, “Devemos tomar o cuidado de reconhecer plenamente o estado pecaminoso — caído — da humanidade (Jr 17.9; 1 Co 2.14; Tt 1.15,16)”. Sendo assim, é preciso lembrar que o “pensamento humano não pode ser considerado uma capacidade neutra, objetiva e eficaz, por si só” (Ibidem.).

 

O físico cristão-protestante, Adauto Lourenço, na introdução, e no glossário, de sua obra Como tudo começou, aponta outras propostas, além de algumas variações dos mesmos modelos: “Evolucionismo Teísta: posição teológica onde Deus teria criado o universo e a vida e estes teriam evoluído segundo a explicação naturalista; Criacionismo: cosmovisão que propõe que a origem do universo e da vida são resultados de um ato criador intencional; Criacionismo Bíblico (CB): proposição de que a natureza foi trazida à existência através de um ato criador de Deus, segundo o relato bíblico encontrado no primeiro capítulo do livro de Gênesis, da Bíblia; Criacionismo Científico: propõe que a complexidade encontrada na natureza é resultante de um ato criador intencional. Esta proposta baseia-se no design inteligente encontrado na natureza. A comunidade científica baseia tal proposta na evidência científica, e não em relatos religiosos sobre a criação. Algumas variações do criacionismo científico são: L.A.C. (Long-Age Creationism – Criacionismo de Longas Eras), O.E.C. (Old Earth Creationism – Criacionismo da Terra Velha e Y.E.C. Young Earth Creationism – Criacionismo da Terra Jovem); Criacionismo Religioso: posição religiosa que aceita pela fé os escritos de uma determinada religião sobre a origem da vida e do universo como sendo verdadeiros” (pp.xiii-xiv; p.279). Acerca desse último grupo, o autor acrescenta que o “relato bíblico da criação descrito em Gênesis 1:1-2:4a é um exemplo de Criacionismo Religioso”, e esclarece que tais “formas de criacionismo são geralmente confundidas com as propostas científicas” (Ibid.).

 

O objetivo do trabalho de Lourenço é ser uma “introdução ao criacionismo”, por isso, o autor apresenta um modelo diferente dos elencados, o qual chama de “Teoria da Criação Especial”. Depois de falar acerca da “Teoria da Criação (TC)”, e dizer que se trata de uma “teoria sobre a origem da vida e a sua diversificação, sobre o universo e a sua estrutura, partindo de pressupostos volitivos (planejamento e propósito)”, o físico esclarece que a “Teoria da Criação Especial (TCE)”, refere-se à “teoria sobre a origem da vida e a sua diversificação, sobre o universo e a estrutura, partindo de pressupostos volitivos (planejamento e propósito), características estas atribuídas a um Criador” (Ibid., p.285). Assim, a diferença entre elas, basicamente é a seguinte: ambas falam acerca do “modo como [a criação] teria ocorrido”, sendo que a primeira restringe-se ao “ato criador” em si, ao passo que a segunda, fala não apenas acerca do “ato criador”, mas também aponta um “Criador” (Ibid., p.57). Lourenço diz que grande parte do preconceito acadêmico com as teorias decorre do fato de não ser feita uma distinção entre “Aceitar a existência de um criador” que, para ele “é um ato racional”, posto que tal pode facilmente ser deduzido da proposição “causa-efeito: método científico – ciência”, e a ideia de se “Aceitar quem é o criador”, este sim “é um ato de fé”, onde para o referido autor, entra a “religião” (Ibid., p.55). Ele lembra que as diferenças entre as teorias aceitas cientificamente como, por exemplo, a do Big Bang, não podem ser conciliadas pela teoria criacionista visto que esta “propõe que o universo foi criado do nada (criação ex nihilo), recentemente, completo, complexo, funcional e com uma possível idade aparente” (Ibid., p.83). Contrapondo naturalismo٭ com criacionismo, ele afirma com convicção que a “proposta criacionista da origem da vida baseia-se primariamente na ciência das probabilidades”, ou seja, “Para que algo aconteça, deve haver uma probabilidade razoável, aceita dentro de certos parâmetros” (Ibid., p.124). E é dessa proposição que, tomando a biologia como a área do saber em que a proposta criacionista atende melhor a ideia de planejamento e, particularmente, fornecendo como exemplo o “processo de informação controlada nas células”, que Lourenço conclui não existir “a menor possibilidade de que tal sistema tenha sido o resultado de bilhões de pequenas coincidências através de bilhões de anos!” (Ibid., p.128).



Uma vez que o propósito de Lourenço é defender o Criacionismo da Terra Jovem, ele critica a ideia de que o universo tenha bilhões de anos. Na verdade, o físico brasileiro afirma que o universo e, consequentemente a Terra, possuem uma idade aparente, ou seja, “parecem velhos”, mas não o são de fato. Em suas palavras, “a teoria criacionista propõe que o universo foi criado do nada (criação ex nihilo), recentemente, completo, complexo, funcional e com uma possível idade aparente” (Ibid., p.83). Seu argumento primeiramente concentra-se na crítica à hipótese inflacionária, especificamente, a teoria do Big Bang. Para isso, ele apresenta refutação a diversos aspectos da Física que são ponto pacífico entre a maioria da comunidade científica, conforme reconhece o já citado John Stott, dizendo que “a evidência geológica em favor de um desenvolvimento gradual ao longo de milhares de milhões de anos parece para muitos cientistas conclusiva” (Para entender a Bíblia, p.55). Isso não significa, óbvio, que tais pontos não possam ser questionados, pois a ciência é feita dessa forma. Contudo, a motivação para assim proceder não pode partir de premissas cuja opinião seja de que elas nunca, sob hipótese alguma, estão equivocadas. Tal vale para o dogmático religioso ou epistêmico, isto é, seja quem for. O grande problema de se desconstruir a ciência para acusá-la de imprecisa quando ela endossa uma teoria, mas utilizá-la na sequência para corroborar o nosso pensamento, é que isso soa não apenas incoerente, mas desonesto intelectualmente falando. Ora, se a pretensão é justamente provar a veracidade e a coerência da proposta, intenta-se fazer isso fundamentado em alguma fonte autoritativa. No caso de teorias, logicamente que se buscará o respaldo da ciência ou da comunidade científica. Assim, desprezar a ciência quando discorda do que se propõe, mas exaltá-la quando parece convergir com o que se pensa, é um expediente desonesto e nada recomendável. Sobretudo, se o que se pretende é apontar para a coerência entre a mensagem cristã e a realidade.

 

Ao defender o Criacionismo da Terra Jovem, Adauto Lourenço, afirma, por exemplo, que um “universo criado pronto daria a impressão de ter passado por um longo período de desenvolvimento e evolução, quando, na verdade, este período de tempo jamais teria existido” (Ibid., p.91). O físico brasileiro aponta diversos problemas e questões ligadas à teoria do Big Bang e todas essas objeções são pertinentes e dignas de observação. O único ponto intrigante é que o argumento todo se ocupa excessivamente com a problemática da idade do universo e, por conseguinte, da Terra. Cabe perguntar se existe mesmo algum dilema em admitir que o universo possa ter bilhões de anos. Primeiramente é preciso entender que tal questão não pode ser resolvida por uma leitura simplificada de Gênesis 1 e 2, pois sua interpretação, conforme já vimos, não é de fácil aceitação e nem possui apenas uma versão. Em segundo lugar, achar que apenas autores, ou teólogos, liberais são os únicos a ter sérias dúvidas a respeito da interpretação dos referidos textos e, também, quanto ao método de datação da idade da Terra, é outro reducionismo que não se sustenta. O já referido John Stott, depois de afirmar categoricamente que acreditava em alguma forma de evolução (excetuando as que excluem Deus e defendem um processo cego e aleatório), disse que parece não “haver nenhuma razão bíblica para negar que alguma espécie de desenvolvimento evolucionário, servindo a um propósito, possa ter sido o recurso empregado por Deus na criação” (Para entender a Bíblia, p.55). Ele acrescenta que “Sugerir isso de forma cautelosa e temporária de modo algum deprecia a condição única da humanidade” (Ibid., p.56). E na sequência admite: “Eu mesmo creio na historicidade de Adão e Eva, como casal original do qual descende a raça humana”. Entretanto, pondera o seguinte: “Mas minha aceitação de Adão e Eva como figuras históricas não é incompatível com minha crença de que diversas formas de ‘hominídeos’ pré-adâmicos parecem ter existido antes por milhares de anos. Esses hominídeos começaram a avançar culturalmente. Eles faziam suas pinturas nas cavernas e enterravam seus mortos. É concebível que Deus tenha criado Adão a partir de um deles, que se pode chamar de Homo erectus. Penso que se pode até mesmo chamar alguns deles de Homo sapiens, visto que são nomes científicos arbitrários. Adão, porém, foi o primeiro Homo divinus, se é que posso cunhar a expressão: o primeiro homem a quem pode ser atribuída a designação bíblica específica ‘feito à imagem de Deus’. Precisamente em que consistia a semelhança divina estampada nele não sabemos, pois em lugar algum a Escritura nos diz. Parece no entanto que ela incluía faculdades racionais, morais, sociais e espirituais que tornavam o homem distinto de todas as outras criaturas e semelhante a Deus, o criador, e com base nas quais lhe foi dado o ‘domínio’ sobre a criação inferior” (Ibidem).

 

Após essa argumentação nada tradicional, admita-se, Stott pergunta retoricamente acerca de quando se deve datar Adão. Antes de fazê-lo, ele explica a origem da quantidade de anos que o Criacionismo da Terra Jovem defende que o planeta tem. De acordo com o teólogo britânico, a “cronologia adicionada em 1701 à Versão Autorizada da Bíblia (1611) foi calculada por James Usher, arcebispo de Armagh, a partir das genealogias bíblicas”. Como se deu tal cálculo? Usher retrocedeu “por esse processo”, afirma Stott, e “calculou que Adão havia sido criado no ano 4.004 antes de Cristo” (Ibidem.). No entanto, conforme escrevi, em nota, no capítulo quatro da obra Davi, tomando por base a explicação do pastor Antonio Gilberto, a “‘cronologia bíblica é quase toda incerta; aliás, toda a cronologia antiga é incerta. As datas eram contadas tomando-se por base eventos importantes, e isso dentro de cada povo. Não havia, é óbvio, uma base geral’ (GILBERTO, Antonio. A Bíblia Através dos Séculos. 14.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p.145). O mesmo autor apresenta, ao menos, três classes de dificuldades que devem ser consideradas em qualquer estudo da cronologia bíblica: As fontes de dados, as eras e as do próprio texto bíblico (p.146). Quanto a esta última ‘classe de dificuldades’, o autor assinala que ‘Há, especialmente nos períodos: dos juízes, do reino dividido, e dos profetas, muitos períodos coincidentes em parte, reinos associados, intervalos de anarquia, frações de anos tomadas por anos inteiros, partes tomadas pelo todo, e arredondamento de números. Há vários casos quanto a este último item. Exemplos: Êxodo 12.37 com Números 1.46 e 11.21; Gênesis 15.13 com Gálatas 3.17. Outro caso interessante é o do rei Jotão. Em 2 Reis 15.33 se diz que ele reinou 16 anos, entretanto, no versículo 30 é mencionado seu 20° ano re reinado!’ Na sequência, ele oferece o que pode ser uma possível explicação para essa questão: ‘Quanto ao caso do rei Jotão ter reinado, ele pode ter reinado com seu pai, que era leproso, talvez em seus últimos anos de vida. Esse rei leproso — Azarias — (2 Rs 15.5,7), é também chamado Uzias (2 Cr 26.23)’ (pp.146-7)” (p.93). John Stott caminha na mesma linha de pensamento e diz que as “genealogias [...] nunca alegam serem completas”. Como exemplo ele cita que “está escrito numa das genealogias de Jesus que Jorão ‘gerou’ a Uzias, quando sabemos por 2 Reis que ele não era na verdade seu pai, mas seu trisavô. Três gerações completas foram deixadas de lado. Recentes estudos da história do Oriente Médio confirmam que omissões como essa eram prática comum no traçado de genealogias. Com certeza o propósito das tabelas bíblicas era mais estabelecer a linha de descendência (por exemplo, que Jesus descendia de Davi) do que fornecer uma árvore genealógica completa. Se, então, não pretendem ser completas, não temos argumentos para reclamar de suas opiniões, tampouco podemos usá-las para calcular uma cronologia detalhada” (Para entender a Bíblia, p.56). 

 

 Assim, do ponto de vista estritamente bíblico, parece não haver justificativa alguma para insistir na ideia de um universo jovem e também de uma Terra recente. Isso porque, como afirma John Davis, “Todos os fatos parecem indicar que entre os seis dias sucessivos entrevieram longos períodos” (Dicionário da Bíblia, p.131). Para sustentar sua tese, ele afirma que a “falta do artigo definido antes de cada dia enumerado como está na V. B. [Versão Brasileira] favorece esta suposição”. Surpreendentemente, a fim de corroborar o que afirma, Davis menciona até mesmo a “tradição paralela”, dizendo que tal “como se encontra nos documentos babilônicos, refere-se claramente a intervalos nos atos sucessivos da criação e dá-lhes longa e demorada existência”. Ele diz que a “mais remota forma que existe desta narrativa, encontra-se na história mítica do conflito entre Marduk, deus sol, e Tiamat, o abismo das águas, representado por um dragão que tentava reduzir o universo a um caos” (Ibid.).** John Davis esclarece que “Antes da Reforma, os doutores não interpretavam o dia do Gênesis como sendo um período de 24 horas (Agostinho, de Civ. Dei. 11.6). Somente nestes últimos 400 anos é que se tem pensado que Deus criou o universo em uma semana de sete dias de vinte e quatro horas cada um. Afinal, a geologia e a astronomia começaram a se pronunciar contra esta interpretação. Os mestres destas duas ciências estão convencidos de que miríades de anos foram precisos para produzir o sistema solar, e dar à terra a feição atual através de muitas transformações. Quando se tornou claro que as doutrinas geológicas tinham bases substanciais, o Dr. Thomas Chalmers adotou as suas conclusões, e declarou publicamente em 1804, que ‘os escritos de Moisés não fixavam a antiguidade do globo’” (Ibidem.). O autor citado por Davis é responsável por um concordismo entre o texto bíblico e o que se tinha de conhecimento proveniente da geologia da época. Tal expediente é sempre perigoso, pois, como afirma J. A. Thompson em O Novo Dicionário da Bíblia, organizado por J. D. Douglas, o “ponto de vista concordista tem procurado encontrar uma correlação mais ou menos exata entre a ciência e a Bíblia” (p.281). No entanto, como o mesmo autor afirma no início do verbete “criação”, a doutrina bíblica da criação “não deve ser confundida ou identificada com qualquer teoria científica sobre as origens”. Mesmo porque, continua Thompson, o “propósito da doutrina bíblica, em contraste ao propósito da investigação científica, é ético e religioso” (p.278).    

 

Mas não são apenas esses autores, definitivamente ortodoxos, que não apoiam um ciacionismo de Terra jovem, outros, igualmente conservadores, não partilham dessa ideia. O conhecido Gleason Archer, diz que “se tivéssemos de entender Gênesis 1 de forma completamente literal — o que pensam alguns ser o único princípio apropriado de interpretação no caso de a Bíblia ser verdadeiramente inerrante e completamente confiável — então não haveria possibilidade de conciliação entre a teoria científica moderna e a narrativa de Gênesis” (Enciclopédia de Temas Bíblicos, p.52). Contudo, ele pontua que “uma crença verdadeira e adequada na inerrância da Escritura não implica numa única regra de interpretação, seja literal, seja figurada” (Ibid.). Seguindo a linha de que os dias da criação de Gênesis não podem ser de 24 horas, Archer converge com Stott e afirma que “independentemente de quão pouco confiáveis possam ter sido os métodos de datação que levaram a estimativas tão elevadas da antiguidade [dos] antropoides, permanece o fato de que eles não podem ser datados como anteriores à criação de Adão e Eva, a que se refere Gênesis 1—3. Não importando como as estatísticas de Gênesis 5 sejam tratadas, elas dificilmente podem determinar para Adão uma data muito anterior a 10000 a.C. Se os números em Gênesis merecerem confiança, mesmo admitindo a ocorrência de lacunas esporádicas na corrente genealógica, somos forçados a considerar todos esses antropoides primitivos como pré-adâmicos. Em outras palavras, todas essas espécies, desde os cro-magnos, voltando até os zinjantropos, devem ter sido de macacos avançados ou antropoides possuidores de considerável inteligência e criatividade — mas que desapareceram completamente antes que Adão e Eva fossem criados” (Ibid., p.57). O mesmo autor, concluindo o assunto acerca dos períodos geológicos, finaliza então dizendo que “Pode ter havido hominídeos adiantados que viveram e morreram antes de Adão, mas que não foram criados à imagem de Deus. Essa é uma linha de distinção à qual a Palavra de Deus nos compele, e é aqui que devemos rejeitar qualquer interpretação dos dados paleantropológicos que suponha que uma semelhança no esqueleto estabelece os antropoides pré-adâmicos como verdadeiros seres humanos, no sentido bíblico do termo. Embora esses habitantes primitivos das cavernas possam ter desenvolvido certas aptidões em sua busca de alimentos e se engajado em guerras entre si — como o fazem outros animais —, não há, todavia, nenhuma evidência arqueológica de que uma alma humana verdadeira animava seus corpos” (sic) (Ibid., p.58). Após apresentar mais algumas informações com o objetivo de refutar a ideia de as raças pré-adâmicas terem alguma semelhança ou ancestralidade humana, Archer conclui dizendo que animais, ou alguns primatas, apresentam determinada forma de “inteligência” e que, “evidências de inteligência semelhante no ‘homem’ pré-histórico não são provas decisivas de humanidade no sentido adâmico nem de capacidade moral e espiritual. Portanto”, conclui o mesmo autor, “essas raças não-adâmicas, pré-adâmicas, não ameaçam de forma alguma a credibilidade bíblica, não importa quão antigas sejam” (Ibidem.).
 
 
O não menos conhecido Lewis Sperry Chafer também parece não partilhar da visão criacionista da Terra jovem, pois ao falar da queda de Lúcifer, comentando o texto de Ezequiel 28.13, afirma que “Faz pouca diferença se isto é uma referência ao Éden primitivo ou ao Éden do Gênesis 3”, pois continua, “Satanás esteve em ambos” (Teologia Sistemática, V.2, p.461). Outro autor conservador que também não é adepto da visão criacionista da Terra jovem é Henry Clarence Thiessen. Falando acerca de criação imediata e mediata, ele diz que “Quer devido a ter o ato original da criação ficado deliberadamente incompleto, ou a alguma catástrofe que tenha acontecido com a criação original, encontramos a terra em Gênesis 1:2 ‘sem forma e vazia: havia trevas sobre a face do abismo’” (Palestras em Teologia Sistemática, p.108). Em seu estilo, ele questiona se “houve um período longo ou curto entre a criação original no v.1 e os seis dias da criação no resto do capítulo” e, na sequência, responde: “Cremos que provavelmente houve um longo intervalo” (Ibid., p.109). Thiessen, para legitimar sua tese, cita o teólogo presbiteriano estadunidense do século 19, William Greenough Thayer Shedd, autor de uma famosa Teologia Dogmática de três volumes, dizendo que a “‘doutrina de um tempo vastíssimo, anterior aos seis dias da criação, era comumente aceita pelos antigos e estudiosos’, Op. cit., I, 474” (Ibidem.). Assim, para Thiessen, o “primeiro ato criador ocorreu em um passado não especificado, e entre ele e a obra dos seis dias há muito lugar para todas as eras geológicas”. Na verdade, completa ele, o “intervalo pode ter chegado a milhares ou mesmo milhões de anos” (Ibidem.). Na sequência, o mesmo autor questiona se “devemos pensar nos seis dias como sendo seis longos períodos ou como seis dias literalmente”, e para responder cita novamente Shedd que em seu comentário corrobora com a informação acima já referida por John Davis, dizendo que a “‘exegese patrística e medieval os dá como longos períodos e não dias de 24 horas’”, e conclui, “‘Essa última interpretação tem prevalecido apenas na igreja moderna’. Op. cit., I, 475” (Ibid., p.110). Encurtando nossa pesquisa de quantos pensadores mais são adeptos de uma Terra antiga, Thiessen afirma que dentre “os muitos que têm esta opinião, podemos mencionar especialmente os teólogos [Charles] Hodge, Shedd, [John] Miley e [Augutus Hopkins] Strong e os proeminentes cientistas: Dana de Yale e Guyot de Princeton”, e arremata informando que “Todos eles destacam a maravilhosa harmonia (sic) do relato do Gênesis e as descobertas da geologia” (Ibidem.). Finalizando o tema da doutrina da criação, Thiessen afirma que ao apelarmos “para o próprio relato bíblico para obtermos informação, notamos primeiro que a data 4004 A.C., encontrada nas margens de algumas das edições da Versão Autorizada, é do Arcebispo Ussher”. Em termos diretos, completa o mesmo autor, “Não é parte do texto inspirado e pode no máximo ser verdadeira apenas quanto à época da criação do homem. Nem mesmo é certo se essa é a data exata para criação do homem” (Ibid., p.113). Thiessen coloca de forma bem clara sua posição dizendo “admitir que o universo é muito mais antigo do que 6.000 anos — quanto mais antigo, talvez ninguém possa dizer” (Ibid., p.114). A discussão poderia estender-se quase que indefinidamente, passando por algumas figuras conhecidíssimas como Scofield e Lawrence Olson, só para citar mais dois. Entretanto, os exemplos citados objetivaram apenas demonstrar que muitos teólogos conservadores não participam da visão criacionista da Terra jovem. Há outras opções que também possuem fundamento no texto e nas teorias. Vale lembrar que todo concordismo possui em si um gérmen perigoso. Resta apenas saber se vale a pena correr o risco de, como disse Timothy Munyon, “produzir uma viúva teológica na geração seguinte — uma interpretação teológica com base em uma teoria científica abandonada” (Op. Cit., p.240). 

7 comentários

João Paulo

Prezado Pr. César, O texto é interessante e, digamos, desafiador quando em confronto com o que temos por "aceitável" em nosso círculo. Ao meu sentir, a ideia de uma terra "antiga" encontra fundamento na ciência, naquilo que os estudiosos apontam como critério razoável para datação. Como bem pontuado, o concordismo pode ser muito perigoso.. Há ainda os que questionem os métodos de datação De todo modo, é difícil, de fato, abraçar uma corrente seguramente. Contudo, é riquíssima a reflexão.

Eliton Thomas

Prezado pr. Cesar é muito bom ter os argumentos. De varios escritores bíblicos e tbm científico pois nos faz Abrir janelas de visões sobre o criacionismo de Génesis inicio de toda criação de Deus. E nos faz refletir e tirar conclusões de interpretações as vezes infindáveis.

Robson Rocha

Prezado Cesar, Gostei bastante deste texto pois deixa claro a multiplicidade de interpretações possíveis acerca do relato da Criação em Gênesis. Infelizmente, muitos tendem a investirem seu tempo e intelecto tentando definir/julgar quem é cristão de fato, não por crer e seguir o Unigenito Filho de Deus, mas por interpretar Gênesis cap. 1 de uma determinada maneira. Seu texto mostra o quanto isto não faz sentido.

Marcelo Roberto de Oliveira e Oliveira

César, Ainda: Confesso que me surpreendi com John Stott sobre a existência de diversas formas de hominídeos pré-adâmicos...

Marcelo Roberto de Oliveira e Oliveira

(Cont.) O que fica claro é que devemos convergir sobre o ponto crucial do relato do Gênesis: Deus é o Criador dos céus e da terra. Os desdobramentos dessa criação são passíveis de várias interpretações, como ocorre com a Escatologia Bíblica. De modo que definir quem é conservador ou liberal a partir da teoria a ou b só leva a uma batalha intelectual sem sentido e que em nada edifica. Parabéns pelo texto, Paz e Bem!

Marcelo Roberto de Oliveira e Oliveira

(Continuação) Isso significa, naturalmente, que não temos como mensurar o tempo cronológico da criação do universo e do ser humano, pois a narrativa do gênesis está num tempo muito distante do que entendemos como cronologia moderna.

Marcelo Roberto de Oliveira e Oliveira

Caro César, Não tenho opinião formada sobre a relação das teorias das terras jovem ou antiga, e nem me interesso em ter, embora do ponto de vista do escritor sagrado e do seu estilo literário, parece que ele quis que os leitores compreendessem os dias e a criação narrados em Gênesis de acordo com os fenômenos costumeiros da época em que o relato de Gênesis foi produzido (se o leitor da época tinha a compreensão de um dia de 24 horas, o escritor sagrado queria que ele compreendesse assim).

Deixe seu comentário







Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

COLUNISTAS