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Pr. César Moisés

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O Big Bang, o Universo Eterno e o Criacionismo - Parte 6

Seg, 09/11/2015 por

Depois de ter analisado os modelos cosmológicos da hipótese inflacionária (cujo mais popular é o Big Bang, uma mega singularidade) e da cosmologia sem singularidade (Universo Eterno), cabe-me agora apresentar o que se conhece como Criacionismo. Inicialmente é importante compreender que a expressão criacionismo surge, em um contexto muito distinto do que atualmente se popularizou e referia-se “à teoria de que cada alma individual é um produto de uma ação divina da criação”* (Breve Dicionário de Teologia, p.78). Justo González afirma que o criacionismo, tal como se conhece, é a “resposta de alguns cristãos à teoria da evolução, que lhes parece uma ameaça à doutrina da criação”. Ele “se distingue da doutrina cristã da criação, que não é nem pretende ser científica, nem tampouco uma tentativa de descrever as origens das espécies” (Ibid., p.78). É importante se distinguir tal aspecto já de início, pois os que insistem em uma ideia de “concordismo”, ou seja, a noção de que é possível harmonizar o texto bíblico aos dados científicos, são justamente os que insistem em utilizar os textos iniciais de Gênesis como fundamento do Criacionismo que, por sua vez, é visto como uma espécie de teoria científica. Todavia, o texto de Gênesis 1—2, conhecido como “relato” ou “relatos da criação”, assim como já o disse inúmeras vezes e, novamente agora alinhando-me a Tremper Longman III digo, é mais do que “certo que o relato bíblico da criação não foi escrito para se contrapor a Charles Darwin ou Stephen Hawking, mas foi escrito à luz de descrições rivais da criação” (Como ler Gênesis, p.82). O que isso significa? Que a chamada “doutrina da criação”, diz González, “tem sido proposta como uma hipótese científica para explicar a origem do mundo [...] em concorrência ou contraposição com a hipótese evolucionista (Criacionismo)”, porém, essa controvérsia faz “perder boa parte do sentido da doutrina da criação, visto que a ênfase recai sobre a questão de se a Bíblia deve ser interpretada literalmente ou não, e sobre qual das duas histórias da criação em Gênesis (ou talvez uma combinação de ambas, omitindo-se as diferenças irreconciliáveis entre elas) deve ser tomada como literalmente correta” (Ibid., p.77).

 

A indistinção entre os relatos da criação, herdados do judaísmo, ou a doutrina cristã da criação, e o Criacionismo, tem feito com que haja um inacabável digladiar entre os próprios cristãos que revela, ao menos, duas coisas: falta de conhecimento ou vaidade. Em muitos casos, infelizmente, se têm as duas situações. Na verdade, quem realmente conhece, sabe da diferença entre ambas e entende que a sua visão não é a melhor, ou a certa, mas apenas a que mais faz sentido para si. Isso porque, como se sabe, mesmo autores como J. P. Moreland, reconhecem “a existência de problemas suficientes na interpretação de Gênesis 1 e 2, para respaldar uma cautela dogmática de que somente uma compreensão é permitida pelo texto” (Racionalidade da fé cristã, p.274). O referido autor cita, por exemplo, que dentre os simpatizantes da interpretação literal, temos quatro concepções: 1) A chamada “seis dias da criação”, de Henry Morris e Duane Gish; 2) a explicação denominada de “seis dias da recriação”, de Bruce Waltke; 3) a concepção cognominada de “seis dias reveladores”, de Bernard Ramm e de P. J. Wiseman; e 4) a conhecidíssima “teoria da lacuna”, de Thomas Chalmers (Ibid., pp.275-76).** Assim, após dissertar acerca de várias questões relativas à hermenêutica do texto de Gênesis 1—2, tais como as diferenças entre as palavras hebraicas para “criar”, a cronologia do Antigo Oriente Próximo, bem como a estrutura e o propósito da narrativa, Moreland resume a questão da seguinte forma:

 

“Em resumo, várias questões exegéticas complicadas estão envolvidas na compreensão de Gênesis 1 e 2. O texto deve ser tomado como o registro histórico real dentro de uma ordem cronológica básica, embora a presença de motivações temáticas ou literárias deva nos deter na tentativa de sermos muito detalhistas ou precisos na compreensão da ordem cronológica. A narrativa indica uma mistura entre a criação direta e os processos naturais divinamente dirigidos. Os problemas exegéticos permitem a possibilidade de que várias compreensões diferentes do texto, no âmbito da inerrância, sejam concorrentes legítimas. Saber a data de criação é uma pergunta difícil, mas, apenas com base em motivos exegéticos, a concepção de dias literais de 24 horas é a melhor. No entanto, considerando que diferentes pontos de vista criacionistas progressivos são opções exegéticas plausíveis com base apenas em conceitos hermenêuticos, e, se a ciência parece apontar para um universo de vários bilhões de anos, parece admissível ler o Gênesis sob essa ótica. Seria errado permitir que a ciência proponha uma compreensão do Gênesis que não seja antes plausível com bases exclusivamente hermenêuticas. Mas, nesse caso, um cosmos muito antigo parece admissível. Por outro lado, não parece admissível uma grande antiguidade para o homem. Mesmo com lacunas nas genealogias, parece-nos que Adão e Eva sejam recentes, com certeza dentro dos últimos cinquenta mil anos e, provavelmente, até antes. De qualquer maneira, os cristãos devem continuar a propor vários paradigmas para Gênesis 1 e 2 que realmente não causem danos ao texto. Existem muitas questões exegéticas difíceis em razão do dogmatismo e de lutas internas entre nós” (Ibid., pp.281-82; sem grifos no original).

 

Na verdade, se por um lado é fato que a “referência histórica”, diz Alexandre Ganoczy, dos relatos da criação, “distingue o discurso bíblico dos mitos cosmológicos usados no entorno egípcio e babilônico, muito embora ele assuma diversos motivos destes”, por outro, é preciso entender que “as duas narrativas [Gn 1—2] dos inícios primordiais não têm nenhum caráter de narrativa histórica, mas de caráter ‘histórico-originário’ [...], o que quer dizer que apresenta traços fundamentais do ser humano, que se permitem observar sempre e em toda parte, em Israel e fora de Israel, de maneira paradigmática em forma de narrativa” (Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia, p.135). Tal ideia é partilhada por C. S. Lewis que dizia desconhecer “uma teoria filosófica que seja um avanço radical comparável às palavras de Gênesis: ‘No princípio Deus criou o céu e a terra’. Digo ‘radical’ porque a história de Gênesis, como disse Jerônimo, é contada em forma de ‘poesia popular’ ou, como diríamos hoje, em forma de lenda ou conto popular. Entretanto, se a compararmos com as lendas de outros povos sobre a Criação — com todos aqueles absurdos encantados sobre gigantes que precisam ser destruídos e dilúvios cujas águas precisam baixar, trazidos à existência antes da Criação —, a profundidade e a originalidade da lenda hebraica logo serão evidentes. A ideia de criação, no sentido estrito da palavra, é perfeitamente compreendida” (Milagres, p.57). O que está se dizendo é que, apesar das semelhanças entre os relatos da criação e dos mitos da criação ou cosmogônicos (egípcios, mesopotâmicos e cananeus)***, qualquer um que se dispuser a estudar tais mitos, perceberá que os relatos da criação de Gênesis 1—2 não colocam a criação como algo “ruim” ou como fruto acidental de uma disputa entre divindades, mas sim como ato intencional do Criador que, após criar todas as coisas, disse que tudo era “bom” (cf. Gn 1.25). A esse respeito, o conhecido John Stott afirma que a “narrativa simples e sem floreios [de Gn 1—2], que atribui sabedoria, propósito, poder e bondade ao Deus criador, está a quilômetros de distância das fantásticas e até mesmo repulsivas narrativas da criação que circulavam no Antigo Oriente Médio”. Na opinião dele, existem “similaridades superficiais, já que ambas começam com caos e terminam com alguma espécie de cosmos”. No entanto, segundo o mesmo autor, “as diferenças são muito mais significativas”, ou seja, as “versões do Oriente Médio são grosseiras, politeístas, imorais e grotescas; a narrativa bíblica é austera, monoteísta, ética e sublime” (Para entender a Bíblia, p.54).


Mas se tal é assim, seria o caso de se perguntar: Por que tanto conflito e intriga existente entre os que afirmam crer que Deus criou todas as coisas e os proponentes de teorias científicas que não reivindicam, ou não necessitam, de um agente criador? Na opinião de Stott, os “cientistas precisam distinguir entre fato e teoria, e os estudantes da Bíblia entre declaração inequívoca da Escritura e interpretação humana falível” (Ibid., p.54). Nesse quesito, temos um misto de arrogância com ignorância dos dois lados. Cientistas que confundem teoria (tentativa de explicação da realidade) com a realidade propriamente dita e leitores da Bíblia (não necessariamente teólogos, mas também estes) que não distinguem entre Escritura e interpretação particular desta que, diga-se de passagem, é sempre dependente do método teológico determinado pela denominação a que pertence. Assim, afirma John Stott, o que “podemos dizer com segurança [é] que Gênesis 1 começa com Deus (‘no princípio, criou Deus...’), prossegue em estágios progressivos (‘e disse Deus... e disse Deus...’) e termina no homem (‘criou Deus, pois, o homem à sua imagem [...] homem e mulher os criou’)” (Ibid., pp.54-55). Esse é o relato da criação, isso é o que consta no texto, por isso Stott pergunta: “Quão mais longe podemos ir além disso? Em particular, o que podemos dizer a respeito do ‘como’ da atividade criativa de Deus?”. Essa ultima é uma questão importante na qual venho insistindo há alguns anos. À ciência cabe responder o “como” e à teologia o “porque”. O problema é que, responde o mesmo autor, “Alguns cristãos de hoje defendem o conceito literal de uma criação em seis dias, mas o texto não o exige, e a descoberta científica parece contradizê-lo”. Na verdade, explica Stott, o “texto bíblico não se apresenta na forma de tratado científico, mas na de declaração literária muitíssimo estilizada (deliberadamente emoldurada em três partes — o quarto ‘dia’ correspondendo ao primeiro, o quinto ao segundo e o sexto ao terceiro)” (Ibid., p.55). Mesmo tendo essa pista na estrutura literária do texto, ainda assim, os que insistem em dias literais de 24 horas são suficientemente influenciadores a ponto de, como afirma Francis J. Beckwith, o termo criacionismo ser “compreendido pelos tribunais” estadunidenses, como “sinônimo de criacionismo da Terra jovem” (Ensaios Apologéticos, p.318). Contudo, como se verá, não existe apenas esse tipo de Criacionismo. Na verdade, tal termo e, particularmente, essa modalidade da proposta, talvez seja a mais problemática de se defender, pois há grande diferença entre o relato bíblico e as alegadas defesas concordistas desse mesmo relato com pretensões “científicas”.

 

 

NOTAS


* Justo González diz que, “Neste sentido se opõe ao traducianismo” (p.79), ou seja, uma das formas pelas “quais os teólogos da antiguidade explicavam a origem das almas individuais: da mesma forma que o corpo e suas características são herdados dos pais, assim também se herdam a alma e suas características. Contra essa teoria, outros insistem no ‘criacionismo’ — segundo o qual cada alma nova é uma criação individual por parte de Deus. Mesmo que, posteriormente a maioria dos teólogos rechaçasse o traducionismo porque implicava em uma visão materialista da alma, com tudo isso, essa teoria teve um papel importante nas discussões precoces sobre o pecado original. Tornava-se simples reclamar que, do mesmo modo que se herdavam as feições, herdava-se também o pecado” (Breve Dicionário de Teologia. 1.ed. São Paulo: Hagnos, 2009, p.319). A primeira vez que me deparei com essa discussão foi na obra Confissões, de Agostinho, quando ele questiona: “As almas foram criadas todas de uma vez ou são criadas a cada nova concepção?”
** Millard J. Erickson apresenta seis “tentativas de harmonizar a idade aparente da Terra com o material bíblico: 1) a teoria da lacuna; 2) a teoria do Dilúvio; 3) a teoria do tempo ideal; 4) a teoria do dia-era; 5) a teoria do dia pictórico; 6) a teoria do dia de revelação” (Teologia Sistemática. 1.ed. São Paulo: Vida Nova, 2015, p.374). Tanto essas seis perspectivas quanto as quatro apresentadas por Moreland, são discutidas e explicadas nas respectivas obras.
*** Tremper Longman III afirma que, “Começando pela época dos patriarcas e indo até o restante do período do Antigo Testamento, os filhos de Abraão viveram no meio de um mundo pagão. Só Israel adorava YAHWEH, ao passo que as demais nações possuíam seus próprios deuses e deusas — e também possuíam seus próprios relatos da criação. Uma vez que o povo de Deus era constantemente tentado a adorar as divindades de outras nações, não devemos ficar surpresos com o fato de que os relatos bíblicos sobre a criação tenham sido elaborados de uma tal maneira que proporcionasse uma clara distinção em relação aos relatos de outras nações. Assim mesmo, existem semelhanças. De qualquer modo, a leitura mais interessante e produtiva dos relatos bíblicos da criação se dá à luz dos relatos rivais do Antigo Oriente Próximo” (Como ler Gênesis. 1.ed. São Paulo: Vida Nova, 2009, p.82; sem grifos no original).

3 comentários

João Paulo

Completando: "1) a idade da terra não é um teste para ortodoxia; 2) nenhuma das visões é comprovada com finalidades científicas , visto que há pressuposições não-comprovadas (se é que são comprováveis) associadas com cada posição; 3) o fato da criação (versus evolução) é mais importante que o tempo da criação; 4) o inimigo comum (a evolução naturalista) é um foco mais significativo do que as diferenças intramuros."

João Paulo

Prezado Pr. César, Tratando de uma área em que há certa inquietação e discórdia intramuros, "Criacionismo da Terra Jovem" e "Criacionismo da Terra Velha", Geisler, em sua Teologia Sistemática (p. 958) afirma que "no mínimo, seria sábio se ambos os lados concordassem com os seguintes pontos:

Nildo Fabrício dos Santos

...as razões pelas quais, a cegueira toma conta, se baseia em apenas na teoria do "eu acho". Qdo alguém "dá a cara a tapa" num assunto de tamanha envergadura, o mais óbvio é em poucas palavras detonar comentos de forma banal...me atenho apenas em dizer: ...o SENHOR te use como usou os escritores bíblicos no perfil da doutrina da inspiração...continuo orando e renovo meu compromisso!!!... PS: conheces o livro de Anne Grahan Lotz, A Linguagem de Deus???...vale a pena!!!...meu abraço!!!

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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