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Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

A virtude de mudar

Qua, 01/01/2014 por

Adentramos 2014. Escrevo esse primeiro texto do novo ano como forma de homenagear os que me dão o prazer de acompanhar a coluna durante esses três anos e meio. No último dia 22 de dezembro, o físico brasileiro Marcelo Gleiser escreveu, em sua coluna na Folha On-Line, uma excelente reflexão intitulada “Homenagem ao fracasso”. Entre tantas coisas interessantes, Gleiser inicia seu artigo dizendo que em uma “sociedade em que o sucesso é almejado e festejado acima de tudo, onde estrelas, milionários e campeões são os ídolos de todos, o fracasso é visto como algo embaraçoso e constrangedor, que a gente evita a todo custo e, quando não tem jeito, esconde dos outros”. Ele oportunamente observa que “Talvez não devesse ser assim”. Por quê? Primeiramente, porque só “Fracassamos quando tentamos fazer algo. Só isso já mostra o valor do fracasso, representando nosso esforço. Não fracassar é bem pior, pois representa a inércia ou, pior, o medo de tentar. Na ciência ou nas artes, não fracassar significa não criar. Todo poeta, todo pintor, todo cientista coleciona um número bem maior de fracassos do que de sucessos. São frases que não funcionam, traços que não convencem, hipóteses que falham”. A posição do físico brasileiro e professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA), levou-me a adensar algumas intuições que têm me conduzido a um paulatino processo de mudança de pensamento e/ou horizonte teórico.

 

Ao concluir, na semana passada, a leitura da excelente obra do italiano Carlo Rovelli, sobre Anaximandro de Mileto ou o nascimento do pensamento científico, cresceu em mim o desejo de dizer o “óbvio” — não obstante o fato de não o percebermos —, acerca de como progredimos como seres humanos. Após contextualizar o leitor dizendo o que era a sociedade grega no período do século VI a.C., o doutor em física pela Universidade de Padova (Itália), cita o pequeno fragmento que ficou preservado da obra Sobre a natureza, de Anaximandro, cuja tradução controversa, pode ser:

 

Todas as coisas têm origem uma de outra
e acabam uma na outra, segundo a necessidade.
Elas fazem justiça uma à outra, e se recompensam pela injustiça, em conformidade com a ordem do tempo.

 


Para Rovelli, nesse pequeno fragmento do qual já muito foi escrito, encontra-se uma das principais revoluções do mundo antigo. Isso porque para a “religião grega o céu é o lugar privilegiado do divino e os fenômenos meteorológicos são uma forma mais característica de expressão dos deuses (KAHN 1960). O relâmpago é atributo do pai dos deuses, Zeus. Poseidon causa os terremotos. A imprevisibilidade dos fenômenos meteorológicos é o espelho mesmo, no pensamento religioso grego, da liberdade do divino”. A conclusão do físico italiano, é que abrir mão de tais concepções míticas e propor “uma investigação naturalista desses fenômenos, independente dos deuses, é uma enorme ruptura em relação à leitura religiosa do mundo” (Anaximandro de Mileto, p.51). Assim, a obviedade atual de que os fenômenos atmosféricos tenham uma causa natural, e não mítica como se pensava, precisa ser vista com um olhar daquele tempo e naquela sociedade. Só então é possível perceber a grandeza de Anaximandro e o “gigantesco passo conceitual [que foi] necessário para considerar essa hipótese” (Ibid.). É preciso dizer com Rovelli que ainda “que as explicações efetivamente propostas por Anaximandro estivessem erradas, o fato mesmo de propor a busca de causas e explicações naturais para os fenômenos atmosféricos, [...] é, portanto, de importância capital para a história da ciência”, pois, de qualquer forma “é um primeiro nascimento de investigação sobre o mundo” (Ibid., pp.54-55). Tal é assim pelo simples fato de que, muito provavelmente, “uma vez formulada a ideia-chave de procurar explicações naturalistas, e uma vez aceso esse sadio ceticismo, siga-se de modo bastante direto, da observação do mundo, certo número de explicações racionais” (Ibid., p.55).

 

Segue-se a essa primeira ruptura de Anaximandro, uma segunda, e talvez mais decisiva, para o nascimento do pensamento científico que é justamente questionar as descobertas e conclusões daqueles que nos precederam, visando ampliá-las e aperfeiçoá-las. Para Carlo Rovelli, “é claro que a grande especulação teórica de Anaximandro põe-se em movimento a partir da especulação de Tales e nela se fundamenta inteiramente” (Ibid., p.84). Dessa maneira, segundo o doutor em física, é correto afirmar que “Tales é, portanto, em sentido figurado e provavelmente também no sentido literal, o mestre de Anaximadro” (Ibidem). Mesmo tendo sido considerado, na tradição antiga, um dos “sete sábios” da Grécia (Ibid. p.83), Tales é “questionado” por seu discípulo. Rovelli diz que Anaximandro “faz algo profundamente novo: mergulha profundamente na problemática do mestre Tales, tornando melhores suas intuições, o modo mesmo de pensar, as conquistas intelectuais. Mas critica frontalmente as afirmações do mestre. Põe em discussão a fundo o ensino de Tales. Tales disse que o mundo é feito de água? Não, não é verdade, propõe Anaximandro. Tales disse que a Terra flutua sobre a água? Não, não é verdade, afirma Anaximandro. Tales diz que os terremotos são causados pela oscilação do disco da Terra sobre o meio em que flutua? Não, não é verdade, responde Anaximandro, são causados pelas fraturas da Terra. E assim por diante” (Ibid., pp.84-85). Rovelli reconhece que a “reverência de Anaximandro para com Tales é clara, e é óbvio que Anaximandro se apoia completamente sobre conquistas intelectuais de Tales. Mesmo assim ele não hesita em dizer que Tales se enganou nisso ou naquilo e que é possível melhorar” (Ibid., p.85).

 

Para o doutor em física, entre a negação ostensiva ou a aceitação acrítica, Anaximandro encontrou uma “terceira via” que é, ainda hoje, “o credo fundamental de qualquer cientista moderno: é preciso estudar profundamente os mestres, compreender suas conquistas intelectuais fazendo-as próprias e, com base nesse conhecimento adquirido, encontrar os erros no pensamento desses mesmos mestres, corrigi-los, e desse modo compreender melhor o mundo” (Ibid., p.86). Rovelli defende que cabe a Anaximandro o mérito de ter iniciado “a prática dessa terceira via” que, na realidade, além de ser o “cerne da força do pensamento científico”, é justamente essa “contínua colocação em discussão das hipóteses e dos resultados obtidos no passado, que, todavia, parte primeiramente do reconhecimento profundo do valor de conhecimento contido nesses mesmos resultados” (Ibid., p.87), avançando em direção a um maior saber acerca de determinada descoberta. Longe de ser uma retaliação, tal atitude é necessária para avançar no conhecimento. Criticar, nos termos que o fez Anaximandro, não tem o objetivo de faltar com o respeito, e sim compartilhar a consciência “de que uma proposta melhor sempre pode existir” (Ibid., p.99). Essa é, aliás, a visão que predomina na ciência desde o início do século passado. Enquanto no século 19 reinou soberana “a ideia de que teorias científicas boas sejam definitivas e permaneçam depois exatas e válidas para sempre” (Ibid., p.107), no século 20 a “confiabilidade da ciência não se assenta sobre a certeza mas, ao contrário, sobre a radical falta de certezas. Sobre a aceitação da crítica” (Ibid., p.122). Em outras palavras, “aceitar a nossa incerteza não é apenas a estrada real para o conhecimento: também é a escolha mais honesta e mais bela. O nosso conhecimento, como a Terra, está suspenso sobre o nada. A provisoriedade e o vazio que derivam daí não tornam a vida mais insensata: a tornam mais preciosa” (Ibid., p.168).

 

Ao defender a ideia de que podemos questionar o que outros disseram tendo como fim avançar no conhecimento, de certa forma, Rovelli reverbera Charles Finney, quando o evangelista estadunidense afirma que a inquestionabilidade é uma postura inadmissível, “na teologia como seria em qualquer outro ramo da ciência, e tão prejudicial e entorpecente quanto absurdo e ridículo” (Teologia Sistemática, p.24). Finney é ainda mais explícito quando se trata da pretensa performance de “imutabilidade” que alguns ostentam como se isso virtude fosse: “Ainda não consegui estereotipar minhas opiniões teológicas e parei de pensar consegui-lo algum dia. A idéia é absurda. Nada, senão um intelecto onisciente, pode continuar mantendo uma identidade precisa de concepções e opiniões. Mentes finitas, a menos que adormecidas ou entorpecidas por preconceitos, devem avançar no conhecimento. A descoberta de uma nova verdade modificará concepções e opiniões antigas, e talvez esse processo não tenha fim em mentes finitas, qualquer que seja o mundo. A verdadeira coerência cristã não consiste em estereotipar nossas opiniões e concepções e em recusar-nos a fazer qualquer progresso para não sermos acusados de mudança, mas consiste em manter a mente aberta para receber os raios da verdade por todos os lados e em mudar nossas opiniões, linguagem e prática na freqüência e na velocidade com que conseguimos obter informações complementares. Chamo-o de coerência cristã porque só essa trilha está de acordo com uma confissão cristã. Uma confissão cristã implica investigação contínua e mudança de opinião e prática em correspondência ao conhecimento crescente. Nenhum cristão, portanto, e nenhum teólogo deve temer uma mudança em suas concepções, linguagem ou práticas em conformidade com uma luz crescente. A predominância desse temor manteria o mundo no mínimo numa imobilidade perpétua, e todos os objetos da ciência e, por conseguinte, todos os aperfeiçoamentos tornar-se-iam impossíveis” (Ibid., pp.23-24).

 

Examinando os quatro primeiros textos do livro Escritos e Conferências 2 – Hermenêutica, de Paul Ricoeur, pude constatar o que está sendo defendido por Rovelli, Finney e Gleiser.  Trata-se do conteúdo de conferências proferidas pelo grande pensador francês no Instituto Stensen de Florença, entre 19 e 21 de maio de 1988. Ao analisar o que chama de “o problema da hermenêutica”, Ricoeur apresenta parte do seu percurso filosófico, iniciando em 1950, com a publicação de uma de suas importantes obras, Filosofia da vontade, passando por muitas outras, elencando como formou sua concepção de hermenêutica e, culminando, nas conferências acima referidas, com a explicitação do processo de “revisão dos desenvolvimentos sucessivos pelos quais passou [sua] concepção da hermenêutica” (Escritos e Conferências 2 – Hermenêutica, p.26). O filósofo francês não hesita em confessar que produziu seus livros sobre interpretação tendo como objetivo dar conta de temas “com contornos bem definidos”, sendo que, consequentemente, acabava por escrever outros visando responder a “questões não resolvidas pelos precedentes” (Ibid., p.15). Não há demérito algum em Ricoeur ao admitir isso, pois é assim mesmo que se faz filosofia e também ciência. Como afirmou Gleiser no artigo já mencionado, “Tem gente que acha que gênio é aquele cara que nunca fracassa, para quem tudo dá certo, meio que magicamente. Nada disso. Todo gênio passa pelas dores do processo criativo, pelos inevitáveis fracassos e becos sem saída, até chegar a uma solução que funcione”.

 

Tal deve ser assim pelo simples fato de que se um postulado é dogmático, não pode ser científico ao mesmo tempo, pois não aceita questionamento nem mudança. Contrariamente, se um postulado é científico, não pode ser dogmático, pois deve submeter-se ao questionamento e críticas. Logo, se o assunto é dogma, exige-se fé para submeter-se a sua proposta sem ilusão de prová-lo cientificamente. Se o tema quer impor-se com o status de “ciência”, aí precisa aceitar as regras do jogo, submetendo-se ao crivo da inquirição. Esse não é o ponto do texto aqui discutido. A única coisa para a qual quero chamar a atenção é como todos convergem para o tema mudança (ainda que Rovelli e Finney através do questionamento, Ricoeur pela revisão das próprias ideias e Gleiser pelo “fracasso”). No campo pessoal, Gleiser é preciso ao dizer que o “fracasso garante nossa humildade ao confrontarmos os desafios da vida”. Em outras palavras, se “tivéssemos sempre sucesso, como entender os que fracassam? Nisso, o fracasso é essencial para a empatia, tão importante na convivência social”. Ele ainda acrescenta que sendo como somos, “a vaidade pessoal muitas vezes obscurece a memória dos fracassos passados; isso é típico daqueles mais arrogantes, que escondem seus fracassos e dificuldades por trás de uma máscara de sucesso. Se o fracasso fosse mais aceito socialmente, existiriam menos pessoas arrogantes no mundo”.

 

Nesse novo ano, possamos estar abertos às mudanças. Que estas sejam para o nosso bem e para o bem dos que estão à nossa volta. Não há problema algum em aceitá-las, pois isso é justamente o que nos faz humanos e sensíveis. Claro, se tais mudanças não ocorrerem por pragmatismo, conveniência ou simplesmente para sermos aceitos em algum grupo no qual temos algum interesse escuso. Fora esses maus exemplos, é uma virtude mudar, inclusive retrocedendo, pedindo desculpas quando nos enganarmos ou mesmo revisando as afirmações à luz de novos e melhores conhecimentos. Mudar é conditio sine qua non não apenas para a ciência, mas para a vida. Feliz 2014.

5 comentários

Silvino Francisco Gonçal

Excelente! O que é mais lamentável, e observarmos posturas cientificistas com prognósticos dogmático, certamente há um grande equivoco em posturas como estas, pois sendo científica está propensa a ser inquirida. Mas com o temor do fracasso dogmatizam para tentar evidenciar um postulado triunfalista. Acrescento I. Kant "sapereaude". Quem tem medo não constrói, apenas transmite sem refletir.

Naíola Paiva de Miranda

Caro Pr César Moisés,muito pertinente, essa discussão no seu artigo sobre a virtude de mudar. Uma das posturas importante é aceitar a mudança, compreender que precisamos sair da mesmice e ir em busca de novas estratégias para atingir nossos resultados. Sou coordenadora de área de congregações no ministério infantil em Fortaleza-Ce, e a igreja tem passado por mudanças com o nosso novo pastor, que Deus tem colocado, mas ainda vemos a resistência,das pessoas em se adaptarem ao novo rit

João Paulo

Caro Pr. César Moisés, Paz do Senhor Como citado no comentário anterior, na pequena parcela assembleiana que vejo aqui do interior das Gerais é urgente a necessidade de as instituições mudarem e dialogarem com o presente século. Lideranças devem estar cientes de que os crentes (principalmente jovens) já não são os mesmos de quando muitos de nossos nobres e honrados pastores foram introduzidos nas fileiras assembleianas. Rever nossa postura, ler o que pensam os bons pensadores crist

Adriano Lima

Prezado amigo, que em 2014, prossigamos aprendendo, refletindo, revisando nossos aprendizados, mudando sempre que necessário, sem medo de fracassar, mesmo por que "nossos fracassos são muitas vezes mais frutíferos que nossos êxitos". Que você tenha um vibrante 2014.

Marcelo de Oliveira e Oli

Caro César, Paz e Bem! Meu desejo para 2014 é que, além das pessoas, instituições não tenham medo de arejarem o seu diálogo com a época. A vida é muito curta para fazermos mera performance. Feliz 2014!

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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