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Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

O que o crânio de 1,8 milhão de anos, encontrado na Geórgia, prova?

Sab, 26/10/2013 por

Na semana passada (18), cientistas da Geórgia apresentaram um crânio que, segundo afirmaram, teria 1,8 milhão de anos. Além da surpreendente idade do achado, por ter sido descoberto fora do Continente Africano e também por sua forma, se for confirmada a sua veracidade, pode-se pensar em grandes mudanças no pensamento dominante acerca da narrativa paleoantropológica que até então era dominada por fósseis achados na África. Apesar de o crânio ter sido descoberto há oito anos, somente agora, após sucessivas comparações com crânios de até 2,4 milhões de anos encontrados na África, foi que os pesquisadores tornaram público o achado, publicando um artigo na revista Science. (Confira matéria Crânio de 1,8 milhão de anos pode reescrever história da evolução humana, no site da BBC News, assinada pela repórter de ciência, Melissa Hogenboom).

 

Em se confirmando, o achado colocará por terra, ao menos temporariamente, a ideia predominante de que existiram várias espécies de hominídeos, tais como o homo habilis, o homo erectus, o homo ergaster e o homo de neanderthalensis. Em outras palavras, do ponto de vista da ciência paleoantropológica o achado representa um desafio ao pensamento dominante de que os seres humanos (leia-se “nós”), tidos como descendentes da espécie homo sapiens, seríamos o estágio evolutivo que, das várias espécies conhecidas pela expressão genérica “homo”, mostrou-se o mais apto à sobrevivência (valendo-se do raciocínio do mecanismo de seleção natural). O crânio apresentado por pesquisadores da Geórgia sugere que “as espécies Homo habilis, Homo rudolfensis e Homo erectus são todos parte de uma linhagem única que evoluiu para o homem moderno”. Isso reduz significativamente os ramos da “árvore genealógica de vida”, provocando a necessidade de uma revisão geral na hipótese até então sustentada.

 

Segundo afirmou o pesquisador David Lordkipanidze, do Museu Nacional da Geórgia, temos agora “a melhor pista para entender o que o Homo realmente é”. Isso porque, de acordo com o mesmo pesquisador, o “crânio possui dentes grandes, um rosto comprido e sugere que o cérebro era menor. Estas características são semelhantes às do Homo habilis. No entanto, outros traços também são exclusivos do Homo erectus”. David Lordkipanidze defende que tais características, isto é, “as grandes variações verificadas neste crânio não são sinais de espécies diferentes, mas sim de diferenças dentro de uma mesma espécie”. Algo que é, segundo ele acrescenta, perfeitamente normal mesmo quando comparado ao caso de “humanos modernos”. Assim, a conclusão dos pesquisadores georgianos é que a análise do crânio da coleção Dmanisi, “revela pontos de coincidência suficientes para classificar os fósseis do Homo africano na mesma categoria dos hominídeos de Dmanisi”.

 

Como não poderia deixar de ser, evidentemente que a descoberta suscitou contestações de outros pesquisadores. A mesma matéria da BBC News cita a fala do paleoantropólogo Fred Spoor, da University College London, que “acredita que pelo menos três espécies distintas de humanos coexistiram na África”. Ele ainda critica o que classificou como um “método generalista” de tratar do crânio adotado pelos pesquisadores georgianos. Outro pesquisador, Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres, apesar de reconhecer que “‘este novo crânio, com sua mandíbula gigante’, era parte de uma variação natural da população Dmanisi”, tem dúvidas quanto ao fato de se “enquadrar todas as diferentes características dos fósseis em uma mesma linhagem evolutiva de Homo erectus”. Em outras palavras, Stringer ainda acha cedo para tirar conclusões com base em apenas um crânio encontrado.

 

Se de um lado essa descoberta trouxe problemas à teoria, ou narrativa, corrente que defende a ideia da existência de várias espécies de hominídeos, é importante saber que, mesmo essa “amplamente aceita teoria”, não se constitui em um fato, pois como afirma o entomologista Edward Wilson, a questão da eussocialidade ainda é um grande mistério. Em sua última obra, A conquista social da Terra, Wilson procura investigar o problema que os biólogos denominam de “eussocial”, característica, ou nomenclatura, que descreve exclusivamente o homo sapiens (p.27). A eussocialidade retrata nossa condição humana. Na opinião do entomologista, não há “Graal mais fugidio ou precioso da mente que a chave da compreensão da condição humana” (p.7). Por isso mesmo ele adverte que “Nenhum caminho evolutivo, de qualquer tipo, pode ser previsto, seja no início ou perto do fim de sua trajetória” (p.33). O assunto está tão aberto que Wilson afirma ainda que “Pesquisas recentes em diversas disciplinas da ciência estão se juntando para iluminar os passos evolutivos que levaram à condição humana, oferecendo ao menos uma solução parcial ao ‘problema da singularidade humana’ que tanto tem intrigado a ciência e a filosofia” (p.35).

 

O entomologista menciona a grande questão da “eussocialidade” que intriga os biólogos — “O que impeliu os hominídeos para cérebros maiores, mais inteligência e, portanto, uma cultura baseada na linguagem?” —, acrescentando “que essa é a pergunta das perguntas” (p.49). Após explorar várias hipóteses para responder tal inquirição, Wilson questiona: “Se não foi a adaptação à mudança ambiental (e a questão está longe de ter sido decidida), o que desencadeou então o rápido crescimento evolutivo do cérebro dos hominídeos?” (p.54). O mesmo autor, depois de apresentar uma daquelas ilustrações sobre a evolução dos hominídeos (a apresentada trata-se de um quadro da Exposição Cerveau, do Museu de História Natural de Marselha, França), explica de forma lúcida e honesta que, assim “como todos os grandes problemas em ciência, a origem evolutiva da humanidade apresentou-se de início como um emaranhado de entidades e processos em parte visíveis, em parte imaginados” (p.61). Tal se deu pelo fato de que, como esclarece Wilson, “alguns desses elementos ocorreram em uma era remota do tempo geológico, e talvez nunca sejam entendidos com certeza”. Mesmo assim, ele diz ter reunido as partes da epopeia com as quais acredita que os pesquisadores concordam e preencheu o “restante com opiniões fundamentadas” (Ibid.). O mesmo autor diz ainda sobre as hipóteses de pré-adaptação imaginadas, que “quase todas as conjecturas são parcialmente corretas”, entretanto, admite que “nenhuma faz sentido, exceto como parte de uma sequência, uma dentre muitas sequências que eram possíveis” (p.68). É nesse contexto que ele apresenta sua teoria da evolução eussocial a fim de responder o problema da condição humana. Proposta essa que, inclusive, tem irritado Richard Dawkins.

 

Não obstante saber que as coisas são e devem ser assim em ciência, ou seja, nada “é”, e sim “tudo está”, o que se pode dizer do crânio da Geórgia, por enquanto, é que ainda é muito cedo para se comemorar o desmoronamento da teoria paleoantropológica até então prevalecente. Mesmo essa, como se viu da breve argumentação de Edward Wilson, não é conclusiva, mas hipotética. Analisando por esse aspecto, o crânio de 1,8 milhão de anos, não prova absolutamente nada. O único conselho que deixo aos criacionistas, sobretudo aos adeptos do criacionismo científico de Henry Morris, chamados também de criacionistas da terra jovem, que não embarquem na armadilha de usar esse achado como “prova” da existência de Deus (este chamado de “deus das lacunas”), ou como forma de desacreditar a evolução. Além de ser cedo demais para se comemorar, a idade do fóssil coloca um grave problema à tese central defendida por essa teoria religiosa que defende ter a Terra apenas seis mil anos. Assim, para escapar da merecida acusação de desonestidade intelectual, pela seletividade dos dados científicos que comprovam sua teoria e a ostensiva rejeição das descobertas que colocam em xeque sua hipótese, deixem esse assunto em seu devido lugar, pois será muito difícil explicar como foi possível encontrar um crânio que favorece a ideia de que somos provenientes de um ancestral comum, mas cuja idade ultrapassa — em um milhão setecentos e noventa e quatro mil anos! — o tempo de existência, que essa forma de criacionismo defende, que o nosso planeta azul possui.

8 comentários

alexandre

Parabéns pelo texto:Nossa fé é indestrutível e baseada em uma continuação da vida após a morte, fato impossível de ser comprovado pela ciência, porém somos bombardeados por pseudas comprovações cientificas que a maioria dos cristãos ignoram por medo de perderem á fé ,é impossível nos tempos atuais não adquirirmos conhecimento , grande parte deles confrontam nossa fé, e talvez essa seja a maior provação de nossos dias.

jarmes

Interessa-me mais o futuro, a eternidade e a morada eterna do homem. Quanto ao passado o que vejo é: "um doutor citando outros doutores". Nada mais.

José

Eu acuo que o planeta terra possa ter alguns milhões de anos, mas o homem tem, com certeza, 6000 anos de história, conforme narra a Biblia.

Adriano Lima

Excelente texto César. Esse Deus das lacunas, que insistimos em colocar onde a ciência não alcança, é uma abstração teologicamente perigosa. Como razão o físico brasileiro Marcelo Gleiser afirmou que “Tentar encontrar Deus em nossa ignorância do mundo não é uma boa ideia”.

Jonatas Ribeiro

Fugir da aparência do mal, conselho paulino que muitos ignoram. Que mal a ignorância tem causado em nossa comunidade evangélica, deixando-nos anos-luz do Ide designado por nosso Senhor, removendo qualquer possibilidade inteligível de diálogo com o mundo, o qual ao invés de iluminarmos tendemos a extinguir qualquer fonte luminosa julgando-as trevas. Parabéns pela texto, lúcido, como deveria ser de todo cristão.

Roberto dos Santos

Parabéns professor Moisés ! "...Além de ser cedo demais para se comemorar, a idade do fóssil coloca um grave problema à tese central defendida por essa teoria religiosa que defende ter a Terra apenas seis mil anos..." É um absurdo interpretar o relato do Gênesis 1-2 sobre a criação, seguindo uma hermenêutica literalista. Os teólogos precisam aceitar o conhecimento científico , com base na matemática e na observação, experimentação), evitando de vez, o arriscado caminho da teol

Robson

Resumindo: Este achado não põe em cheque a teoria da árvore evolucionista, apenas sugere que ela teve menos galhos. Tentar fazer uma correlação entre este primata de 1,8 milhões de anos com o pensamento criacionista que defende uma interpretação literal e temporalmente linear dos primeiros capítulos do Gênesis é virtualmente impossível. Concordo com César Moisés: este crânio deveria ser assunto apenas para paleontólogos, não para teólogos.

Raimundo Neto

É até um caso de admiração, estes homens estuam tanto e aprende pouco, porque o muito que sabem é só letras e inventar nomes! Se de fato vocês são tão perito para precisar datas e fatos tão irreais, por que não desvenda os mistérios do presente que tem emudecido a sociedade e os grandes do saber? É mais fácil inventar e falar de coisa imaginária do que apresentar provas daquilo que todos nós temos conhecimento! Os sábios não inventa história, os sábios fazem a história; não

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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