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Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

O “desbatismo” dos ateus

Qua, 17/07/2013 por

Por mais que se insista na existência de uma tal secularização que antagoniza com o cristianismo, é preciso entender que se se vive no Ocidente, mesmo não sendo cristão praticante ou adepto de uma de suas vertentes ou expressões, de forma compulsória todos somos “cristãos” na estrutura de pensamento: Concebemos (ou aceitamos por força maior) a história como linear, vivemos no ano de 2013, século 21, terceiro milênio, precisamos definir as datas dos eventos históricos a que fazemos referência tendo como marcos, ou balizas, as siglas a.C. (antes de Cristo) ou d.C. (depois de Cristo) (mesmo que a fim de serem politicamente corretos alguns pensadores tenham optado pela expressão “era comum”), e comemoramos o Natal (seja com fins religiosos, familiares ou comerciais). 

 

No passado, pensadores lutaram bravamente para adquirirem o direito de pensar. Sabe-se, porém, que isso só aconteceu devido ao cristianismo. Evidentemente que ao falar sobre “cristianismo”, como afirma Jean Ladrière, “deve-se levar em conta a existência de várias formas históricas, cada uma representando uma interpretação particular de um certo núcleo originário, e deve-se também levar em conta a dificuldade de definir critérios de pertencimento ou de fixar os traços de uma identidade cristã” (A fé cristã e o destino da razão, p.157). Assim, é preciso diferençar, dentro da religião cristã, qual de suas vertentes pode ser mais responsabilizada pela criação da ciência e da emancipação do exercício do pensar fora das bitolas eclesiásticas. De acordo com Alister McGrath, em “anos recentes, surgiu um crescente corpo de obras acadêmicas sustentando que a contribuição decisiva para o aparecimento das ciências naturais não veio do cristianismo em geral, mas do protestantismo, em particular”. Para o mesmo autor, a diferença fundamental está na hermenêutica, isto é, na leitura e interpretação que este grupo deu “para os objetos naturais” e “isso”, diz ele, “apareceu a partir do novo sentido que a abordagem emprestava à antiga e religiosa atraente metáfora dos ‘dois livros’: Deus como autor do ‘livro de palavras’ (a Bíblia) e do ‘livro de obras’ (a natureza)” (A revolução protestante, p.368).

 

McGrath afirma ainda que a busca pelo sentido natural, histórico ou literal — enfatizando menos o sentido alegórico — da Bíblia, proporcionou a transposição dessa prática para a “leitura do livro da natureza”. Na verdade, essa “tendência emergente de ver a natureza como ‘natural’ estava ligada à hostilidade do protestantismo com as imagens, o que reforçou mais o fim das concepções simbólicas da ordem natural”. Assim, como o chamado “iconoclasmo protestante desconfiava muitíssimo de objetos tidos como possuindo relevância como símbolos religiosos”, afirma McGrath, não foi difícil transpor essa “linha de pensamento que sustentava que os artefatos feitos pelo homem não podiam mediar nem simbolizar o divino”, e finalmente levá-la “ao despojamento de associações simbólicas com objetos e fenômenos naturais — e, [com] isso, permiti[r] que se tornassem objeto de investigação científica” (Ibid., p.369). Como é próprio do ser humano gabar-se e contar somente vantagem, tal ponto é repetidamente narrado na história da teologia protestante com certo ar de satisfação e orgulho. Todavia, o resultado dessa desconstrução quase nunca é abordado, porém, como diz McGrath:

 

“Esse tema da ‘dessacralização’, ou ‘desencantamento’, da natureza foi estudado em profundidade pelos estudiosos do início do período moderno que notaram suas implicações para o surgimento das ciências naturais — e também do secularismo e do ateísmo. Nesse ponto, a análise de Peter Berger do papel desempenhado pelo protestantismo em motivar a secularização merece menção. Para Berger, pode-se pensar que o protestantismo causou ‘uma imensa diminuição no escopo sagrado da realidade’. Os protestantes não consideram que vivem em um mundo ‘continuamente penetrado pelos seres e forças sagradas’. Ao contrário, eles entendem que seu mundo está ‘polarizado entre uma divindade radicalmente transcendente e uma humanidade radicalmente ‘caída’’, que foi destituída de qualquer qualidade sagrada ou ligação com o sagrado. O catolicismo continha forças que propiciavam a secularização por meio de sua compreensão muitíssimo simbólica do mundo natural e do lugar da humanidade nele. Para Berger, o protestantismo, sem perceber o que estava fazendo, abriu as comportas das forças que modelariam a modernidade e, em última instância, causaria essa angústia e sofrimento ao protestantismo em seu cerne” (Ibid., pp.369-70).

 

Quanto ao problema e a “angústia” sofridos pelo protestantismo a partir de seu próprio cerne, Joseph Moingt é quem esclarece o ponto de maneira inequívoca ao reconhecer que é uma “riqueza de ensinamento considerar que a modernidade seja fruto da história do cristianismo e que nenhuma religião deu origem a uma cultura a tal ponto marcada pela racionalidade nem conseguiu a façanha de libertar seus fiéis de seu próprio jugo” (Deus que vem ao homem, pp.95-96). Assim, pode-se dizer que a Reforma Protestante é responsável pela conquista de espaços livres para a razão pensar. E dizer igualmente que essa mesma reivindicação de espaços “livres de qualquer controle exterior” justifica-se, posto que, diz Moingt, tais “espaços sagrados [finalmente] seriam subtraídos de suas investigações” (Ibid., p.49). A desconstrução do domínio eclesiástico trouxe consigo efeitos, considerados para os crentes, colaterais.

 


Por conta da vinda do Papa Francisco ao Rio para participar da JMJ (Jornada Mundial da Juventude), a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), anunciou a organização de um protesto. Sentindo-se afrontados, os cerca de dez mil associados, que se declaram “ateus praticantes”, farão o chamado “rebatismo”. Prática comum em outros países, sobretudo nos Estados Unidos, onde o movimento de “ateus praticantes” já é bem consolidado, o ato consiste em uma espécie de “ritual”. Segundo Daniel Sottomaior, presidente da associação, o primeiro passo do candidato ao “rebatismo” será “ouvir” algumas palavras em latim “de mentirinha”, diz ele. “Na sequência, os ‘desbatizados’ passarão por uma sessão sob secadores de cabelos, [para] ‘fazer evaporar do corpo as últimas moléculas de água do batismo involuntário” a que foram submetidos na Igreja Católica. Apesar do pequeno número da Atea, Daniel diz que por um erro metodológico, o IBGE subnotifica o grupo que, pelos dados do Instituto, é formado oficialmente por apenas 740 mil adeptos em nosso país. Na opinião de Daniel, o grupo sofre preconceito, pois, para ele, o “Brasil ainda conta com o ensino religioso em órgãos públicos, ainda há símbolos religiosos em órgãos do governo. O estado laico, secular ainda é uma falácia”. Daniel finaliza dizendo que o Brasil “é um país que ainda pensa com a mentalidade de um país católico”. Finalmente, é importante observar que o protesto da Atea foi motivado pelo fato de que o país arcará com cerca de 120 milhões de reais para oferecer suporte à vinda do Papa entre os dias 20 e 21 de julho para a realização da JMJ (BATISTA, Henrique Gomes. Matéria: Ateus farão ‘desbatismo coletivo’ no dia da chegada do Papa ao Rio. Disponível em O Globo on-line no endereço http://oglobo.globo.com/rio/ateus-farao-desbatismo-coletivo-no-dia-da-chegada-do-papa-ao-rio-9059758, acesso em 17 de julho de 2013).

 

É imprescindível que ateus e crentes busquem civilidade para coexistir, pois o mesmo ato que oportunizou a crença igualmente proporcionou o direito à descrença. Filhas do mesmo tempo, ambas as posturas precisam ser respeitadas e se respeitarem mutuamente, pois não existe secularização em um país com tantos “direitos religiosos”, mas, igualmente, é preciso haver tolerância por parte dos ateus, pois eles podem professar sua não-crença de forma aberta e livre. Quanto à desaprovação no tocante aos gastos com a vinda do Papa, alinho-me aos ateus, pois o país não deveria pagar essa conta e sim apenas os fiéis católicos, pois se houvesse um presidente mundial dos ateus e o Estado quisesse fazer o mesmo, certamente protestaríamos motivados tanto por uma coisa quanto pela outra, ou seja, por não acharmos justo que todos paguem a conta e também porque não somos ateus.

7 comentários

Carlos Marx

O Adelson elogiou o texto e, em seguida, esbravejou as maiores intolerâncias. O que você "APRENDEU" com o texto, meu amigo?

urias oliveira de souza

Excelente texto! Acredito que a Reforma protestante teve significativa importância para o desenvolvimento da modernidade através da quebra da hegemonia católica na idade média. Quando Lutero deixa claro as contradições católicas e apresentando ao povo outra possibilidade de verdade, a da Escritura, que em muitas de suas práticas o catolicismo tinha-se distanciado.

Tiago Alexandre da Silva

O cristianismo não tem medo de concorrer com o secularismo ou o paganismo, por jsso é a favor da livre expressão do pensamento. E reafirma constantemente o direito do ser humano fazer suas próprias escolhas...

Daniel Nogueira

Análise interessantíssima. Como evangélico, tenho que concordar que precisamos de respeito mútuo e, sem dúvida, muitos ateus estão passando dos limites. Mas é importante observar que o Papa é um chefe de estado. Com a vinda de Obama, o Brasil gastou $ 120 milhões por dia (http://noticias.band.uol.com.br/brasil/noticia/?id=100000411739). Como ele ficou dois dias, foram gastos 240 milhões de reais! Ou seja, o papa saiu barato...

Marcelo Faria

Excelente texto. Também sou contra o governo subsidiar a vinda do papa, pois ele não é unanimidade nem pelos próprios católicos, que estão completamente enganados, como nas escrituras sagradas que diz que o diabo vem p enganar, roubar e destruir, esta vinda do papa é exatamente isto, nos roubam, enganam os proprios fiéis e no futuro proximo destroem vidas, familias e a sociedade, clamo pelo Sangue de Jesus para que nos livre dos dias maus que sobrevirão a terra...o povo está cego, e n

Adelson Bezerra - Parambu

Que maravilha de texto. Os que se dizem ateus, procuram uma forma de aparecerem na mídia, defendendo seus ideais malucos. Eles estão mais enfurecidos ainda, diante do declínio do movimento ateísta e passam a investir suas ações contra tudo e todo movimento cristão e principalmente agora, após o feliz comentário feito pela apresentadora do SBT Brasil.

Marcelo de Oliveira e Oli

Excelente texto. Num tempo de apologética tão belicosa, é um oásis ver uma análise ponderada sobre o movimento ateísta. E também a capacidade de concordar com os ateus em causas corretas. Sou contra o subsídio público para financiar a vinda do Papa, como também para o financiamento das "Marchas para Jesus".

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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