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Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

Assuntos relevantes em discussões infrutíferas — Parte 4

Seg, 08/04/2013 por

Houve um tempo, um longo tempo, em que a religião, através da Igreja cristã, devido ao poder que ela adquirira através de sua fusão com o Império Bizantino-Romano iniciada na era Constantino (Pontifex Maximus), ditava as regras sobre praticamente tudo no mundo ocidental. Pertencia à Igreja a posse do discurso dominante-dominador e, com isso, ela dispunha da “verdade”. Tudo o que se pensava, tinha de necessariamente aportar ou acomodar-se ao paradigma teológico-filosófico já definido pela Igreja. Toda e qualquer pergunta obtinha sempre a mesma e única resposta, pois esta já estava pronta. Esse longo tempo acabou, pois o mundo, nas palavras do teólogo Dietrich Bonhoeffer, “chegou à consciência de si mesmo e de suas leis vitais”, ou seja, “atingiu a maioridade” (Resistência e submissão, p.435). Ao dizer isso, o teólogo alemão não estava simplistamente condescendendo com o racionalismo, mas procurava demonstrar o perigo tanto da virulência apologética quanto da autodestruição do liberalismo teológico. Ao fugir dos extremos, Bonhoeffer alinhava-se a Karl Barth na defesa de que, na adoção de uma postura de equilíbrio, a “maioridade do mundo não será mais motivo de polêmica e apologia, mas o mundo será de fato compreendido melhor do que ele mesmo se compreende, a saber, a partir do evangelho, a partir de Cristo” (Ibid., p.440). Todos já sabem que a celeuma criada pela Igreja cristã durante toda a Idade Média (e recentemente assumida pelo protestantismo evangélico), curiosamente, ocorreu por questões que quase nada tem com o Evangelho. O exemplo do processo da perda tutelar do mundo por parte da Igreja cristã que teve início por volta do século 16, primeiramente com o impacto da Reforma Protestante e, posteriormente, com a chamada Revolução Científica, deveria ser suficiente como lição, ensinando-nos alguma coisa. Incrivelmente, a Revolução Científica foi desencadeada pela “aventura metafísica” iniciada com os gregos e cooptada posteriormente pela própria teologia cristã em sua busca escolástica de um fundamento último. Como exemplo emblemático e inequívoco pode-se citar as descobertas cosmológicas de cristãos como Copérnico e Galileu que destoaram da interpretação filosófica e religiosa defendida pela Igreja. Por questões de conveniência, a Bíblia Sagrada passou a ser lida pelas lentes do aristotelismo que, como a filosofia dominante naquele período e após ter sido cristianizada por Tomás de Aquino, era o aporte teórico absoluto e ao qual a Palavra de Deus estava em total conformidade. Lógico, naquele momento histórico isso era extremamente vantajoso, pois demonstrava que a Bíblia possuía “respaldo” científico-racional. Esse engessamento, porém, fez com que ela fosse indevidamente transformada em um livro de “ciências naturais”.

 

Preciso deixar claro que ao falar acerca desses assuntos, não há por minha parte nenhuma pretensão de objetividade histórica, pois o que está sendo discutido aqui são ideias e, como afirma Eduardo Duarte, “as idéias possuem história, um percurso no qual são redefinidas, reorganizadas e agregam outros valores de acordo com os contextos históricos e emocionais de cada coletivo que o legitima” (Epistemologia da comunicação, p.43). Faço essa advertência para não cair no “erro no qual caiu Voltaire, por ter confiado em demasia na lógica”, pois, completa o matemático e geômetra francês, Joseph Bertrand (1822-1900): “Não é ela que decide as questões históricas” (Os fundadores da astronomia moderna, p.16). Não obstante, mesmo as vozes mais convergentes admitem que quando os estudiosos trocaram as cosmologias aristotélica e ptolomaica pela copernicana, o mundo nunca mais foi o mesmo. Após a adoção, por parte de Galileu, do modelo heliocêntrico copernicano, revelada por ele em uma carta enviada ao astrônomo alemão Johannes Kepler, nas palavras do astrofísico Mario Livio, a “astrofísica moderna estava começando a tomar forma” (Deus é matemático?, p.83). Na verdade, diz o mesmo autor, a “carta marcou o alargamento da monumental desavença entre Galileu e a cosmologia aristotélica” (Ibid.). Tal se deu pelo fato de que “Galileu Galilei (1564-1642), que tinha uma orientação matemática e experimental bem mais acentuada [...], foi o primeiro a chamar atenção de que Aristóteles havia se enganado inteiramente” (Ibid., p.60). Mario Livio diz que o “surpreendente na falsa lei de movimento de Aristóteles não é que estava errada, mas que foi aceita por quase 2 mil anos. Como poderia uma ideia imperfeita desfrutar tão notável longevidade?” (Ibid., p.61). Livio afirma que há três pontos a ser considerados para essa resposta: “Primeiro, havia o simples fato de que, na ausência de medições precisas, a lei de Aristóteles parecia concordar com o senso comum baseado em experiência — folhas de papiro de fato flutuavam no espaço, enquanto pedaços de chumbo não. [...] Segundo, havia o peso colossal da reputação e autoridade praticamente inigualáveis de Aristóteles como um erudito. Afinal, foi este o homem que formulou os fundamentos de grande parte da cultura ocidental” (Ibid.). Finalmente, a “terceira razão para a incrível durabilidade da teoria incorreta de Aristóteles foi o fato de a Igreja cristã tê-la adotado como parte de sua própria ortodoxia oficial. Isso funcionou como um impedimento contra a maioria das tentativas de se questionar as asserções de Aristóteles” (Ibid., pp.61-62). 

 

O drama maior é que Galileu não estava contra a Igreja, não era ateu e muito menos queria desacreditar a Bíblia. O erro todo foi a Igreja cristã ter submetido a sua teologia às ideias da investigação científica. Pior, ter promovido um concordismo entre o pensamento aristotélico e os textos bíblicos. A intenção galileana, apesar de também não ser boa, era das melhores — “equiparar a matemática com a linguagem de Deus”. Mario Livio diz que essa “identificação, entretanto, levantou outro sério problema — um que estava prestes a ter um impacto dramático na vida de Galileu” (Ibid., p.99). A síntese de tal drama, nas palavras do astrofísico, é que de “acordo com Galileu, Deus falava na linguagem da matemática no projeto da natureza”, mas, contrariamente, de “acordo com a Igreja Católica, Deus era o ‘autor’ da Bíblia” (Ibid.). Assim, impôs-se a questão: “O que se devia fazer então com aqueles casos em que explicações científicas com base matemática pareciam contradizer as escrituras? Os teólogos do Concílio de Trento de 1546 responderam sem meias-palavras: ‘Ninguém que confie em seu próprio julgamento e que distorça as Escrituras Sagradas de acordo com sua própria concepção ousará interpretá-las contrariamente àquele sentido que a Santa Madre Igreja, a quem cabe julgar seu verdadeiro sentido e significado, sustentou ou sustenta.’ Assim sendo, quando, em 1616, pediram aos teólogos que dessem sua opinião sobre a cosmologia heliocêntrica de Copérnico, eles concluíram que era ‘formalmente herege, já que contradiz explicitamente em muitos lugares o sentido da Sagrada Escritura’. Em outras palavras, o que estava verdadeiramente no cerne da objeção da Igreja ao copernicanismo de Galileu não era tanto a remoção da Terra de sua posição central no cosmo, mas, antes, o desafio à autoridade da Igreja na interpretação das escrituras” (Ibid, pp.99-100). O mais irônico era que, apesar das tentativas de Galileu de basear-se “em inúmeras passagens do mais venerado dos primeiros teólogos antigos — Santo Agostinho — para apoiar sua interpretação da relação entre as ciências naturais e as Escrituras não lhe conquistaram muita aprovação. Apesar das cartas articuladas em que sua tese principal de que não existe nenhum desacordo (exceto superficial) entre a teoria copernicana e os textos bíblicos, os teólogos de sua época consideraram os argumentos de Galileu uma indevida incursão em seu domínio. Cinicamente, esses mesmos teólogos não hesitavam em expressar opiniões sobre questões científicas” (Ibid., p.102). Para Mario Livio, o chamado caso Galileu e a sua conclusão com o pedido de perdão do papa em 31 de outubro de 1992, deveriam soar como advertências para as tentativas de “introduzir o criacionismo bíblico como uma teoria ‘científica’ alternativa (sob o mal velado título de ‘projeto (ou desenho) inteligente’)”, pois, completa, “é bom lembrar que Galileu já lutou sua batalha há quase quatrocentos anos — e venceu!” (Ibid., p.104).

 

Temendo justamente por algo semelhante e na intenção de evitar que o mesmo problema se repetisse mais uma vez na história (algo que já estava acontecendo na negação apologética e na aceitação acrítica da teologia liberal), é que Bonhoeffer chamava a atenção para a maioridade do mundo. Evidentemente que o teólogo alemão estava influenciado pela leitura de Wilhelm Dilthey (criador das Geisteswissenschaften ou “ciências do espírito”), particularmente por uma obra citada pelos editores de suas “cartas da prisão”, com destaque para alguns trechos diltheyanos: “Quando o sistema teológico-metafísico [...] havia sido abalado nos séculos 15 e 16 [...]: então surgiu, a partir das reais necessidades da sociedade do século 17, no âmbito novo de uma ciência que atingira a maioridade, [...] um sistema científico que proporcionava princípios de validade geral para a condução da vida e o governo da sociedade” (Resistência e Submissão, p.435). Na sequência, a fim de tornar ainda mais evidente a origem do pensamento de Bonhoeffer a esse respeito, os editores complementam e citam mais um trecho de Dilthey: “Da rebelião holandesa até a Revolução Francesa [...], ele [o ‘sistema científico’ que assume a forma de ‘teologia natural e direito natural’] participou ativamente de todas as grandes transformações históricas. Tão admirado quanto censurado, ele é a expressão grandiosa da maioridade a partir de agora atingida pelo espírito humano na religião, no direito e no Estado” (Ibid.). Apesar da insistente negação de muitos pensadores, ninguém parte do “nada”, não há neutralidade e ela nem é bem-vinda. Mesmo ciente de que logo após os “primeiros sinais de desmoronamento da filosofia aristotélica e aos desafios à ideologia teológica da Igreja, os filósofos começaram a procurar por um novo alicerce sobre o qual erigir o conhecimento humano”, e que a “Matemática, com seu corpo de verdades aparentemente indubitável, ofereceu o que pareceu ser a base mais sólida para um novo começo” (Deus é matemático?, pp.105,106), sendo o cartesianismo o apogeu desse reinício, não durou muito para que essa concepção científica também fosse seriamente questionada. Em termos diretos, a fé na razão — um dos pilares e ideais do Iluminismo — sofreu um grande abalo com a teoria da relatividade e da física quântica. Nada mais era fixo ou estático, o universo se expandia e tudo estava se movendo. Richard Feynman, Prêmio Nobel em 1965 e conhecido como o mais importante físico americano da história, disse certa vez que “segundo a teoria da relatividade, dizer que duas coisas aconteceram ao mesmo tempo expressa a nossa opinião; outra pessoa pode concluir que um evento aconteceu antes do outro. A simultaneidade é uma impressão subjetiva” (Sobre as leis da física, p.133). Segundo ele, isso não deve surpreender, pois “os fenômenos cotidianos representam uma experiência limitada da natureza; sempre envolvem um grande número de partículas e objetos que se movem muito devagar, ou então outras condições especiais”, assim, finaliza, “só temos acesso direto a uma pequena fatia dos fenômenos naturais” (Ibid.). E mesmo essa pequena fatia a que o físico teórico tem acesso, escreve Einstein na abertura de uma obra de Max Planck, são os processos “mais simples que se apresentam à nossa experiência sensorial, pois os processos mais complexos não podem ser representados pela mente humana com a sutil exatidão e a sequência lógica que são indispensáveis ao físico teórico” (Autobiografia científica e outros ensaios, p.12).

 

Qualquer discussão epistemológica acerca da razão precisa considerar a mudança paradigmática do fundamento desta que, até a prevalência da física newtoniana, baseava-se na busca científica de decifração da simetria do “código oculto” das “leis da Natureza” (ou do funcionamento físico do universo), para a assimetria da nova física, descoberta primeiramente pela teoria da relatividade — geral e especial — einsteiniana, bem como a teoria dos quanta de Planck, aliadas ao princípio da incerteza esposado por Heisenberg e retratado por Feynman acima quando este falou sobre a teoria da relatividade. A mudança foi tão drástica que alterou uma busca milenar que, de acordo com Roque Frangiotti e Luciano Rosset, deu origem ao “nascimento da filosofia”. Segundo os autores, a filosofia “caracteriza-se pela ideia revolucionária da existência de uma ordem natural no Universo capaz de ser decodificada e entendida”. Para os mesmos autores, esse entendimento “fez surgir uma nova fundamentação epistêmica para explicar os fenômenos” (Metafísica Antiga e Medieval, p.26). Tal busca pela explicação tinha como objetivo encontrar ou descobrir a “causa que teria originado toda a realidade, isto é, o princípio do qual, pelo qual e no qual a physis [natureza] existe e subsiste”. Assim, “se a filosofia surgiu objetivando encontrar o princípio primeiro da realidade”, na mesma proporção, completam Frangiotti e Rosset, “o que caracterizou seu nascimento foi um problema metafísico, mesmo que a resposta a essa indagação tenha sido physis, isto é, um dos quatro elementos constitutivos da matéria” (Ibid., p.27). O que está se dizendo, como afirma Urbano Ziles, é que a “filosofia grega pensou a totalidade do real como cosmos” (Filosofia da Religião, p.8). O que isso significa? Entre outras coisas, significa que o “nascimento da filosofia marca a passagem do mito (mythón) ao logos [ordem], e tem como tema principal de reflexão a physis, que é a natureza”, daí o porquê de outras das designações dos filósofos pré-socráticos também serem as de “filósofos naturalistas” ou de “filósofos da natureza” (Metafísica Antiga e Medieval, p.27). Essa busca pela ordem e simetria do Universo que visava unificar o mundo material e desvendar o “código oculto da Natureza”, segundo Marcelo Gleiser, perdurou por milênios e inspira até hoje as famosas “teorias da unificação”. Ele mesmo fora um “unificador” em busca da “Teoria de Tudo” ou “Teoria Final”, crente de que “quanto mais profunda e abrangente a descrição da Natureza, maior o seu nível de simetria matemática” (Criação imperfeita, p.14). Gleiser reconhece que “a ideia de simetria sempre foi e continua sendo uma ferramenta essencial nas ciências físicas. O problema” completa o autor, “começa quando a ferramenta é transformada em dogma” (Ibid.). Apesar de constantemente falar-se da revolução copernicana e do modelo heliocêntrico, sabe-se, porém, que não houve um melhor ajustamento de sua teoria por influência de Pitágoras e Platão, ou seja, “apesar da importância da precisão e do embasamento físico, sua maior motivação era obedecer ao ideal platônico de uma ordem cósmica: Copérnico retornou à sugestão de Platão, de que os movimentos celestes, sendo criação de uma entidade divina inteligente (que o filósofo chamou de ‘Demiurgo’), só poderiam ser baseados em círculos, a mais perfeita das formas” (Ibid., p.54).

 

Uma forma geométrica ideal foi suficiente para emperrar a compreensão do correto funcionamento da mecânica orbital, isto é, o compromisso idealista de Copérnico o impediu de ver o que Johannes Kepler, quase um século depois provou: “as órbitas planetárias eram elípticas e não circulares” (Ibid., p.65). Assim, fica claro entender o porquê de Marcelo Gleiser “reconhecer que não é tanto a simetria, mas a presença de assimetria a responsável por algumas das propriedades básicas da Natureza” (Ibid., p.15). Falando acerca da busca de novas leis e abordando o mesmo assunto que Gleiser, Feynman diz que apesar de as órbitas dos planetas não serem circulares e sim elípticas, elas parecem ser quase simétricas. Por quê? “Por causa do longo e complicado efeito da fricção das marés — uma ideia bastante complicada. É possível que a natureza seja, no fim das contas, completamente assimétrica, mas que nas complexidades do mundo real ela acabe parecendo simétrica; assim as elipses se tornam quase círculos” (Sobre as leis da física, p.174). Não obstante sua argumentação, Feynman adverte que tal raciocínio é apenas “outra possibilidade, mas ninguém sabe, são hipóteses” (Ibid.). O próprio Planck diz que quando os “grandes gênios das ciências exatas propuseram suas ideias ao mundo científico — quando Nicolau Copérnico tirou a Terra da posição central do mundo, quando Johannes Kepler formulou as leis que levam seu nome, quando Isaac Newton descobriu a lei da gravitação universal, quando Chistiaan Huygens propôs a hipótese da natureza ondulatória da luz, quando Michael Faraday enunciou os fundamentos da eletrodinâmica e assim por diante —, as preocupações econômicas foram os últimos motivos que levaram esses homens a travar duras batalhas contra as ideias tradicionais e as autoridades de seu tempo. O que lhes dava coragem era a fé na conformidade de suas concepções do Universo com a realidade, e essa fé se apoiava em bases estéticas ou religiosas. É um fato que não pode ser contestado” (Autobiografia científica e outros ensaios, p.87). Diferentemente, em uma conferência em 1913, Planck afirma que vendo “de certa distância, como de um observatório elevado, o conjunto da física teórica moderna dá a impressão de caos, em vez de nos trazer um sentimento tranquilo de segurança como o que tínhamos com o conjunto de especulações do período anterior, chamado clássico” (Ibid., p.89). Uma década depois, em outra conferência, nessa ocasião na Academia Prussiana de Ciências, Planck diz que a “hipótese dos quanta perturbou recentemente o harmonioso sistema da física, e ainda hoje é imprevisível a exata influência que o desenvolvimento dessa hipótese terá sobre a concepção das leis físicas fundamentais” (Ibid., p.154).

 

Os argumentos apresentados podem constituir uma grande decepção para quem acredita piamente que há uma “conexão natural” entre nossa mente e a forma como agem as leis de funcionamento da mecânica do universo (esse, inclusive, é um dos “argumentos cosmológicos” defendidos pelo físico teórico e sacerdote anglicano John Polkinghorne, para “evidenciar” a existência de Deus, conforme ele disserta no primeiro capítulo da obra Grandes Questões da Ciência). Assim, se você está perplexo, não se preocupe, pois como disse Heisenberg citando Niels, “quem não fica chocado ao entrar em contato com a teoria quântica pela primeira vez não pode tê-la compreendido” (A parte e o todo, pp.239-240). A despeito disso, segundo Planck, “não houve nenhuma revolução tão brusca nas ideias desde os tempos de Newton e de Galileu” (Autobiografia científica e outros ensaios, p.205). Isso porque, segundo ele, o “impulso inicial que deu origem a esse vasto movimento está no extraordinário aperfeiçoamento dos métodos de medida, aperfeiçoamento estreitamente ligado ao progresso da técnica, que permitiu a descoberta de fatos novos e obrigou a rever teorias existentes. Duas grandes novas ideias contribuem muito para dar o tom à física nova: de um lado, a teoria da relatividade e, de outro, a teoria dos quanta. Cada uma contribuiu para uma fecunda revolução das ideias, embora tenham permanecido estranhas uma à outra e, até certo ponto, opostas” (Ibid., pp.205-206). A hipótese dos quanta trouxe uma revolução tão intensa que nem mesmo com a teoria da relatividade sentiu-se tamanho impacto. Isto é, apesar de se falar de uma nova física caracterizada pela teoria einsteiniana, de acordo com Planck, a relatividade poderia ser tranquilamente introduzida na física clássica, pois “em certa medida ela foi o seu coroamento por ter unificado, numa síntese superior, as noções de espaço e de tempo, de energia e de gravitação” (Ibid., p.208). Para Planck tal “síntese é tão perfeita que, graças a ela, foi possível dar às leis da conservação da energia e da quantidade de movimento formas perfeitamente simétricas, considerando essas duas leis como duas consequências equivalentes do princípio da mínima ação, que se tornou a lei mais geral da física. Esse princípio envolve tanto o domínio da mecânica como o da eletrodinâmica” (Ibid.). Já em relação à hipótese dos quanta, Planck diz que esta “forma o contraste mais aparente com essa maravilhosa harmonia”, ou seja, ela oferece a “impressão de um explosivo ameaçador que veio de fora para dentro do edifício da física” e a “prova inquietante de sua força” é que já é possível perceber “que uma grande fenda atravessa o edifício de alto a baixo” (Ibid.). A magnitude do abalo na física clássica se dá porque, diferentemente da teoria da relatividade, critica Planck, a “hipótese dos quanta não nasceu de repente em estado adulto”, ou seja, “não se apresentou já de início como um sistema de ideias simples e bem coerente, destinado a trazer a certas leis já conhecidas da física modificações muito profundas em princípio, embora insignificantes na prática, na maioria dos casos” (Ibid., pp.208-209).

 

Para se ter uma noção do quanto a segunda ideia modificou as bases da física clássica, enquanto os grandes físicos elaboraram suas ideias partindo do princípio de uma racionalidade do Universo, segundo Planck, a hipótese dos quanta “surgiu num domínio bem especial da física — a teoria do calor radiante —, como o único meio de salvação. Mais tarde, problemas diferentes, como o efeito fotoelétrico, o calor específico, a ionização, as reações químicas, tornaram-se às vezes muito simples e bem mais fáceis de resolver admitindo-se a hipótese dos quanta” (Ibid., p.209). “Assim”, continua Planck, “essa hipótese logo deixou de ser um simples instrumento de trabalho para tornar-se um novo princípio fundamental, encontrando aplicação sempre que tratamos de fenômenos muito pequenos e muito rápidos” (Ibid.). A crítica planckiana torna-se mais aguda nesse momento: “Infelizmente, a hipótese dos quanta não se contenta em contradizer ideias antigas, o que seria relativamente suportável. Cada vez mais ela contradiz os postulados fundamentais da física clássica”, mas, completa Planck, “não se trata, portanto, de uma simples modificação, como no caso da teoria da relatividade, mas de uma verdadeira subversão das ideias” (Ibid.). É possível que alguém apressadamente acredite que o grande físico alemão estava apenas interessado em desconstruir as ideias cristalizadas da física clássica como se fosse um capricho pessoal. O que ele queria, na verdade, era trazer luz a alguns cantos ainda obscuros da ciência. Ciente ele estava de que quando isso acontecesse, parte do edifício da física clássica ruiria sob os golpes da teoria dos quanta, porém, uma ela seria substituída por uma construção mais perfeita e mais sólida (Ibid., pp.214-215). Planck não tinha dúvidas, “a física, considerada pela geração anterior como um dos mais velhos e mais sólidos conhecimentos humanos, entrou em um período de agitação revolucionária que promete ser um dos mais interessantes da história” (Ibid., p.215). Longe de ser algo ruim, sua satisfação vinha do fato de que assim que fossem “resolvidas as causas do embaraço atual ficar[ia] evidente que, além de contribuir para descobrir fenômenos novos, novas pistas terão sido abertas para explorar mistérios da própria teoria do conhecimento” (Ibid.). De fato, talvez sem se aperceber em que medida, a teoria dos quanta revolucionou até mesmo a forma de encarar a percepção, demonstrando a impossibilidade de exaurir um problema, mesmo na perspectiva das ciências exatas e do exercício de um positivismo puro, pois o “pensamento e a pesquisa científica são partes integrantes da vida psicológica humana” (Ibid., p.114). Isso significa que “se o objeto da pesquisa for idêntico ao sujeito que pensa e que procura, este último entra num estado de transformação perpétua à medida que o conhecimento avança” (Ibid.).

 

Planck conseguiu mostrar que não passa de uma ilusão a busca de uma resposta final absoluta. “Na natureza”, diz o físico alemão, “tudo o que pode ser testado por medidas tem uma particularidade: o resultado dessas medidas nunca pode ser expresso por um número bem definido, pois sempre há causas de erro que acarretam certa indeterminação” (Ibid., p.202). Em termos mais diretos, “medida alguma permitirá saber se uma lei natural possui exatidão absoluta ou é apenas aproximada. Por outro lado, não existe teoria do conhecimento que nos permita chegar a um resultado mais satisfatório. Como já notamos, não estamos nem mesmo em condições de provar que há leis naturais; como então poderíamos demonstrar que essas leis têm valor absoluto?” (Ibid.). Por esse reconhecimento, torna-se mais claro entender o que o físico alemão quis dizer ao falar que “passou o tempo em que a filosofia e as ciências positivas se olhavam com desconfiança, como estranhas” (Ibid., p.215). Para ele, estava claro que, “de um lado, os filósofos perceberam que não lhes cabe traçar a linha de conduta dos cientistas, seja para indicar os objetivos que devem buscar, seja para propor os métodos a utilizar; por outro lado, os cientistas compreenderam perfeitamente que o ponto de partida de suas pesquisas não está apenas nas percepções sensíveis e que certa dose de metafísica é indispensável até mesmo para as ciências positivas. A antiga verdade, que na física moderna destaca com evidência, é que há realidades independentes de nossas sensações e há problemas e assuntos controversos em que essas realidades valem mais que os maiores tesouros obtidos do Universo tal como nossos sentidos o percebem” (Ibid.). Uma vez que “a relação de incerteza [Unsicherheitsrelation], descoberta e formulada por Heinsenberg, constitui um traço característico da física quântica” (Ibid., p.48), questiona retoricamente Planck: “Quem pode garantir que um conceito, ao qual atribuímos hoje um caráter absoluto, não será mais tarde considerado relativo, colocando-se num novo ponto de vista e cedendo lugar a outro absoluto de caráter mais elevado?” (Ibid., p.186). Apesar de previsível, vale a pena verificar seu raciocínio que emoldura a resposta: “A essa pergunta só há uma resposta: de acordo com tudo que sabemos por nós mesmos e o que aprendemos, ninguém pode nos dar essa certeza. E mais: jamais conseguiremos abraçar verdadeiramente o absoluto. Este é para nós um objetivo ideal; nós o temos sempre diante dos olhos, mas nunca o atingiremos. É uma ideia triste, mas com a qual temos de nos conformar. Somos como o alpinista que sobe uma encosta desconhecida; ele nunca tem certeza se, por trás do cume para o qual está subindo com tanto esforço, vai aparecer um cume mais alto ainda. Seu consolo, como o nosso, é dizer que segue em frente, subindo cada vez mais para atingir o objetivo tão desejado, prosseguir a caminhada para chegar o mais próximo possível desse objetivo, tarefa própria e incessante de cada ciência” (Ibid., pp.186-187).

 

 Planck mostrou que não era mais possível acreditar que a razão pode solucionar todas as questões. Tornara-se impossível crer que a realidade em sua completude ou que todos os fenômenos pudessem ser açambarcados por “razão pura” baseada no cartesianismo ou no positivismo lógico. A esse respeito é interessante o comentário do filósofo esloveno contemporâneo, Slavoj iek, que diz: “A passagem epistemológica da física clássica para a teoria da relatividade não significou que essa mudança em nosso conhecimento foi correlata a uma mudança na própria natureza, ou que na época de Newton a própria natureza era newtoniana e essas leis mudaram misteriosamente com a chegada de Einstein — nesse nível, claramente, o que mudou foi nosso conhecimento da natureza, não a natureza. Mas isso não é tudo: existe, não obstante, um nível em que a ruptura epistemológica da física moderna deve ser correlacionada à mudança ontológica — o nível não do conhecimento, mas da verdade como posição subjetiva a partir da qual o conhecimento é gerado” (Menos que nada, p.541). Aqui é oportuno alinhar-se a Planck quando este, citando o filósofo Gottfried Ephraim Lessing, diz que “‘Não é a posse da verdade que faz o cientista feliz, é o esforço que o leva no sentido do êxito’” (Ibid., p.187). Considere, por exemplo, um texto em que Feynman apresenta uma listagem de partículas físicas, e diz que o “fato de termos encontrado todas essas partículas não nos diz nada, exceto que nosso conhecimento é incompleto” (Sobre as leis da física, p.170). Assim, quando Planck fala sobre o avanço científico representado na criação de “mecanismos de aferição”, demonstra que o “quantum elementar de ação ergue uma barreira objetiva que limita a eficácia dos aparelhos de medida utilizáveis nas ciências físicas” (Autobiografia científica e outros ensaios, p.54). “Por conseguinte”, completa, “o progresso desejado só vai acentuar ainda mais essa barreira” (Ibid.). Quanto mais se descobrir, mais aumentará a sensação de impotência e de falta de saber! E este é claramente o temor dos neopositivistas que insistem em negar as impossibilidades da ciência e teimam em reafirmar a necessidade de uma volta da sociedade a ter fé na razão, ou melhor, no racionalismo. Tal temor ficou expresso no último tópico do texto de Lawrence Otto (amplamente mencionado no artigo anterior), quando este se concentrou em criticar os insights provenientes da antropologia cultural e da teoria da relatividade, dizendo em seu texto "O problema com a ciência americana", na edição de dezembro último da Scientific American Brasil, que o conhecimento só pode ser válido se ele estiver “fundamentado em observações do mundo físico” (p.67). Otto diz que o apelo dos que ele chama de “pós-modernistas”, em afirmar que “a verdade [científica] é relativa e sujeita às suposições e preconceitos do observador”, equipara “falsamente conhecimento e opinião” (Ibid.). Com essa atitude, o jornalista demonstra ter o mesmo medo dos cientistas: Uma vez que a sociedade perceba que a ciência não tem todas as respostas e que nem mesmo a razão é uma capacidade humana infalível, não cabe a ela garantir nada, nem acerca do que é possível de se testar, que dirá daquilo que está longe ou fora do raio de ação do método científico.

 

 

Não perca na próxima coluna a última parte desse estudo. 

5 comentários

Vinícius de Moraes Fonte

Isso não é um simples comentário, é uma tese, é um livro de grande qualidade!! Muito bom...Parabéns Professor Moisés.

Jonatas Ribeiro

Professor César, percebemos na História a influência da Igreja na Ciência, findando em catástrofes. Verificamos a influência da Filosofia no Cristianismo, acertada em sua origem, mas hoje devastador para o Cristo. Percebo hoje uma variedade de teólogos e ateus recorrendo a Lógica - tanto para defender, quanto atacar - para definir, limitar, manietar à Deus. O que pensa quanto à esta metodologia investigativa de Deus?

Raphael Sudre

Se na ciência não há certeza, como terá a religião?

Edilson Siqueira

Caro Pr César, parabéns pelo texto, fruto de ampla pesquisa. Deus o abençoe cada dias mais. Seus artigos nos enriquecem muito. Abraço e fique na Paz do Senhor Jesus!

Adriano Lima

Caro professor César, lendo seu artigo, lembrei do professor Eduardo Prado de Mendonça, no livro "O mundo precisa de filosofia" ele conta que certa vez seu professor de matemática disse: "se me apresentassem uma demonstração matemática da existência de Deus, eu acreditaria em Deus." O professor Prado de Mendonça respondeu: "se me apresentassem uma demonstração matemática da existência de Deus, eu não acreditaria em Deus, pois nesse caso, Deus seria apenas uma entidade matemática."

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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