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Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

Assuntos relevantes em discussões infrutíferas — Parte 3

Qua, 13/02/2013 por

Receio que na esteira da infrutífera discussão entre criacionistas e evolucionistas, seguindo o modelo estadunidense, a disputa intramuros — tal como ainda hoje lá persiste — provavelmente antropofagirá os argumentos religiosos antes de estes serem depreciados pelos cientistas. Refiro-me ao que disse Nancy Pearcey, no prefácio da obra As perguntas certas, de Phillip Johnson (um dos principais proponentes do Intelligent Design), acerca do fato de que antes de Johnson criar o chamado “Movimento do Projeto Inteligente”, “em vez de se unirem para enfrentar a hegemonia da teoria materialista da evolução”, revela Pearcey, “cristãos de todos os tipos discutiam entre si” (p.6). Quais seriam esses “todos os tipos”? Nancy responde dizendo que presenciou debates acirrados entre diversos grupos cristãos: “criacionistas da terra-jovem, criacionistas da terra-antiga, geólogos do dilúvio, criacionistas progressistas, teóricos do intervalo e evolucionistas teístas” (Ibid.). Assim, diz Pearcey, os “secularistas não precisavam batalhar pela marginalização do Cristianismo mediante uma estratégia do tipo ‘dividir e conquistar’, pois os cristãos estavam fazendo esse trabalho para eles” (p.7). A fim de “canalizar” toda essa força para um único lado, Phillip Johnson tratou de convencê-los a “esquecer” momentaneamente as diferenças e os detalhes presentes em cada uma das hipóteses acerca de como Deus criou tudo, concentrando a polêmica em torno de uma única questão com os naturalistas. À pergunta de qual seria essa questão, Nancy Pearcey responde: “É a questão do naturalismo filosófico: A natureza é tudo que existe? As forças da natureza podem, de forma exclusiva, explicar o universo e tudo que nele há? A vida surgiu por meio de processos darwinianos obscuros, materialistas ou a evidência aponta para outras forças? Ao confrontar a cultura secular, essas são as perguntas certas para servir como ponto de partida; todas as demais são secundárias. Os cristãos podem discutir sobre os detalhes de como Deus criou o mundo ou sobre quanto tempo ele levou para criá-lo, mas todos concordam com o fato de que o universo é a obra de um Deus pessoal” (p.7). A diversidade de visões acerca de um mesmo fenômeno, isto é, da existência do todo ou do tudo, mesmo entre os proponentes de que o tudo ou o todo seja produto de um Criador, demonstra o quanto há de complexidade no assunto, não podendo tal discussão assumir um tom de acabamento ou de ultimato. Nesse aspecto, é extremamente sensata a posição de Marcelo Gleiser, quando este afirma no texto “Grandes questões”, em sua coluna no site da Folha, que cientificamente “Não existem explicações finais; apenas descrições satisfatórias dentro do que podemos testar”.

 

Suspeito, porém, que no Brasil a discussão não consiga reunir pensadores cristãos das várias vertentes do criacionismo. Primeiramente pelo fato de que, dependentes do material teológico que é produzido na América do Norte pelo grupo postulante do criacionismo da terra jovem, parece não haver tantas correntes aqui e, em vários casos, dá-se a impressão que muitos sequer sabem da existência delas. Em segundo lugar, e ainda mais grave, a tragédia do personalismo que impera nos círculos protestante e evangélico faz com que a opinião de seus pensadores transforme-se em verdade inquestionável. Nesse particular é importante conhecer a advertência do evangelista estadunidense Charles Finney, apresentada ainda no início de sua Teologia Sistemática, a respeito do fato de que a inquestionabilidade é uma postura inadmissível, “na teologia como seria em qualquer outro ramo da ciência, e tão prejudicial e entorpecente quanto absurdo e ridículo” (p.24). O teólogo é ainda mais explícito quando se trata da pretensa performance de “imutabilidade” que alguns ostentam como se isso virtude fosse: “Ainda não consegui estereotipar minhas opiniões teológicas e parei de pensar consegui-lo algum dia. A idéia é absurda. Nada, senão um intelecto onisciente, pode continuar mantendo uma identidade precisa de concepções e opiniões. Mentes finitas, a menos que adormecidas ou entorpecidas por preconceitos, devem avançar no conhecimento. A descoberta de uma nova verdade modificará concepções e opiniões antigas, e talvez esse processo não tenha fim em mentes finitas, qualquer que seja o mundo. A verdadeira coerência cristã não consiste em estereotipar nossas opiniões e concepções e em recusar-nos a fazer qualquer progresso para não sermos acusados de mudança, mas consiste em manter a mente aberta para receber os raios da verdade por todos os lados e em mudar nossas opiniões, linguagem e prática na freqüência e na velocidade com que conseguimos obter informações complementares. Chamo-o de coerência cristã porque só essa trilha está de acordo com uma confissão cristã. Uma confissão cristã implica investigação contínua e mudança de opinião e prática em correspondência ao conhecimento crescente. Nenhum cristão, portanto, e nenhum teólogo deve temer uma mudança em suas concepções, linguagem ou práticas em conformidade com uma luz crescente. A predominância desse temor manteria o mundo no mínimo numa imobilidade perpétua, e todos os objetos da ciência e, por conseguinte, todos os aperfeiçoamentos tornar-se-iam impossíveis” (pp.23-24).

Chama a atenção quando Nancy Pearcey destaca no prefácio de As perguntas certas o modelo de liderança do autor, dizendo que Johnson mantém um relacionamento amistoso com as pessoas “secularistas” com quem debate, rejeita o “paradigma das celebridades” evangélicas que utilizam uma questão, às vezes até ilegítima ou equivocada, para se autopromoverem e que, além disso, escreve seus próprios livros, fazendo questão de acrescentar que isso se dá “ao contrário de muitos cristãos famosos que colocam seus nomes em obras escritas por outras pessoas” (p.19). Ela diz que ao “rejeitar o modelo de celebridade — ao desenvolver os demais, em vez de buscar se apossar de seus dons e chamados para ele mesmo — Johnson está nutrindo um movimento que irá levar a causa adiante, para a próxima geração” (Ibid.). Nancy afirma ainda que esse exemplo “é verdadeiramente revolucionário e merece ser citado como um modelo mais autêntico de liderança cristã, uma aplicação prática da doutrina do corpo de Cristo: aqueles que são os líderes naturais não receberam de Deus dons de liderança para construírem um legado pessoal, mas para desenvolverem os demais, que são parte do corpo de Cristo”. Mesmo porque, finaliza, “nossos dons não se destinam a servir à nossa própria imagem e reputação, mas, sim, aos nossos companheiros e irmãos em Cristo” (Ibid.). É justamente por isso que “Johnson desenvolveu uma estratégia que pode ser sintetizada na metáfora da cunha, que se tornou sua marca”, destaca Pearcey e completa: “Devido à sua posição na Universidade de Berkeley e aos seus consideráveis talentos intelectuais, Johnson tem agido como o fio da lâmina afiada de uma cunha, provocando uma primeira rachadura no ‘tronco’ do naturalismo científico. Porém, desde o início, ele teve consciência de que o fio da lâmina não poderia fazer todo o trabalho sozinho. Para que sua cunha obtivesse êxito, a penetração inicial tinha de ser seguida pela parte mais espessa da lâmina — um crescente grupo de cientistas, acadêmicos e escritores, o qual fosse se propagando atrás do líder” (p.18). Como demonstração prática desse apoio ao movimento e não a si mesmo, Johnson “empresta seu nome e sua reputação para ajudar companheiros no movimento a alcançarem destaque e voz própria”, pois, como diz Nancy, o fundador do Movimento do Projeto Inteligente “reconhece a importância de se levantar a maior quantidade possível de vozes, cada qual válida por si mesma, para abordar os vários aspectos do projeto inteligente” (p.19).

Lamentavelmente a viabilidade de um movimento semelhante parece impossível em nosso país. De um lado pela falta de interesse ao tema e até apatia, senão aversão, intelectual nutrida pelos evangélicos. Por outro, a altivez segregacionista dos setores mais intelectualizados do protestantismo que acreditam que só eles fazem teologia de qualidade e pensam. Há ainda grupos como os adventistas, por exemplo, que possuem uma tradição no debate do assunto, não obstante, por questões de diferenças teológicas em outros campos que não o da criação propriamente dita, dificilmente aceitarão (e muito menos serão aceitos) compor tal movimento. Por conta da “verdade-doutrinária-particular” de cada segmento cristão é praticamente impossível que os diversos grupos se unam em prol de uma causa maior. Na realidade, a lógica de mercado que impera no cristianismo brasileiro faz com que as denominações briguem entre si, e impossibilita qualquer união de esforços. Como, nas palavras do filósofo romeno Emil Cioran, “só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos”, ou seja, “os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são parentes dos [excessos] da Inquisição ou da Reforma”, a conclusão de Cioran é que o “diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade” (Breviário de decomposição, pp.14-15). Não é incomum ver gente negando a idolatria a imagens de escultura, ao mesmo tempo em que cultiva idolatria de personalidades ou de ideias, sejam estas doutrinárias, teológicas, personalistas, históricas ou científicas. Considerando que o mundo ocidental, depois do Iluminismo, substituiu as “certezas doutrinárias medievais” provenientes das crenças teológicas da religião cristã pela “deusa razão”, e que, em função disso transferiu a sua passionalidade para outra área que, supostamente oferece total segurança de suas “certezas”; milhões de crianças, adolescentes e jovens cristãos vivem uma espécie de esquizofrenia social. De um lado, a ciência diz uma coisa, de outro, a igreja ensina outra. Assim, com ambas instituições se criticando, é inevitável que surja a pergunta: “De que lado está a ‘verdade’?”

 

Discussões infrutíferas (ou a briga pela posse do discurso “dominante-dominador”) versus debates sadios (ou o reconhecimento mútuo de que somos limitados e não temos respostas finais)

 

Quando iniciei esse texto, o fiz justamente para mostrar que a indagação — “De que lado está a ‘verdade’”? — não é a pergunta correta, pois ela transforma um assunto relevante em uma arenga pessoal e reproduz a postura belicosa das relações de poder e da luta pela posse do discurso “dominante-dominador”. Perguntar pelo lado em que a verdade está nesse quesito, é algo incorreto porque além de provocar uma disputa, como disserta o já diversas vezes citado C. S. Lewis em sua obra Milagres, são as metafísicas das cosmovisões que condicionam as respostas de suas perguntas mais fundamentais antes mesmos de estas serem formuladas. O autor de As Crônicas de Nárnia ensina que até mesmo “o resultado da pesquisa histórica depende do ponto de vista filosófico que adotamos, antes mesmo de analisar as evidências” (p.12). Por isso, em qualquer discussão ou debate, para fins de honestidade intelectual, a “questão filosófica precisa, portanto, ser considerada em primeiro lugar” (Ibid.). A questão filosófica para ele era, de uma parte o Naturalismo e, de outra, o Sobrenaturalismo. Lewis chamava as pessoas que não acreditavam na existência de nada além da Natureza de Naturalistas. Quanto aos que acreditavam que existe “algo mais”, ou seja, além da Natureza, ele os chamava de Sobrenaturalistas (p.16). Antes de seguir, é oportuno destacar que, conforme fica claro em vários trechos de sua obra (q.v. pp.28,35,36,38,39,86), Lewis pensava na evolução como produto da criação divina, ou seja, ele era o que modernamente conhecemos como “evolucionista teísta”.* No capítulo três de Milagres, depois de abordar de forma tácita e ligeira a nascente física quântica (a obra foi publicada em 1947), Lewis afirma que em “tempos recentes” surgira algo que ele classificou como “uma ameaça contra o Naturalismo estrito” (p.26). Devido ao fato de ele não acreditar em tal pensamento, a utilização da teoria deu-se apenas como exemplo da inconsistência de uma concepção estritamente naturalística que interpreta a realidade como um sistema fechado de causa e efeito. “Ora”, afirmou Lewis, “se essa teoria for verdadeira, na realidade já admitimos algo além da Natureza”, pois se “o movimento das unidades individuais [da matéria, ou seja, “partículas”] são eventos ‘independentes’, que não se interligam com os demais, então esses movimentos não fazem parte da Natureza” (p.27). Para ele, admitir que “‘os movimentos das unidades individuais são permanentemente imprevisíveis para nós’” (Ibid.), isto é, mesmo que tais elementos não sejam aleatórios entre si e que apenas pareçam se apresentar assim aos nossos olhos ou à nossa percepção, tal raciocínio coloca em xeque a validade do próprio conhecimento em si! 

A despeito de sua não aceitação, Lewis entendeu perfeitamente as implicações do fato de a física quântica tornar-se uma teoria viável. Isso porque, em suas palavras, “todo conhecimento possível depende então da validade do raciocínio” (p.28). Logo, é preciso que “o sentimento de certeza denotado em expressões como deve ser, portanto e desde que represent[e] uma percepção real de como as coisas fora de nossa mente, de fato, ‘devem’ ser” (pp.28-29). Em outras palavras, “se essa certeza [...] se configura meramente [como] um sentimento em nossa mente, e não uma percepção genuína das realidades além delas — se é uma simples representação da maneira pela qual nossa mente trabalha —, então não podemos obter conhecimento”, pois, completa o autor, “a menos que o raciocínio humano seja válido, nenhuma ciência pode ser verdadeira” (p.29). O ponto a destacar é que quando o autor irlandês construiu seu discurso, o fez baseado em uma ideia de razão onipotente ou forte, em outras palavras, em uma faculdade humana que, se ainda não pode, certamente chegará a um estágio em que poderá responder a todas as questões. Isso é tão verdade que ele chega a dizer que “muitas coisas só serão explicadas quando a ciência atingir um nível de progresso mais avançado” (p.25), pois a “glória da ciência é o progresso” (p.28). Assim, como Lewis pretende explicar a possibilidade da crença em Deus (ou na sobrenaturalidade) como algo absolutamente racional, torna-se explicável sua ampla defesa da razão como forma de justificar a certeza de que o conhecimento baseado na percepção pode ser infalível e, sem sombra de dúvida, corresponder à realidade: “Todos concordam que a razão, até mesmo a sensibilidade, e a própria vida chegaram posteriormente à Natureza. Se não existe nada além da Natureza, então a razão deve ter vindo à existência por um processo histórico, e para o Naturalista esse processo com certeza não se destinava a produzir um comportamento mental que levasse à descoberta da verdade. Não houve um Planejador, e, de fato, até que surgissem os pensadores, não havia verdade nem falsidade. O tipo de comportamento mental que hoje denominamos pensamento racional ou inferência deve ter sido, portanto, ‘deduzido’ por seleção natural, pela eliminação gradual dos tipos menos aptos a sobreviver” (p.35). Na realidade, mesmo sem essa intenção, ao falar do valor e da origem do pensamento, Lewis cria um grande problema para a teoria da evolução (não, obviamente, para o modo teísta como ele a concebia): “Houve uma época, então, em que nossos pensamentos não eram racionais. Isto é, todos os nossos pensamentos eram — como muitos ainda o são — meramente acontecimentos subjetivos, e não apreensões da verdade objetiva. Aqueles que de algum modo tinham uma causa externa (como nossas dores) não passavam de reação aos estímulos. Ora, a seleção natural poderia operar somente eliminando as reações biologicamente prejudiciais e multiplicando as que levavam à sobrevivência. É inconcebível, todavia, que qualquer aperfeiçoamento nas reações pudesse transformá-las em atos de reflexão e conhecimento ou, mesmo que remotamente, tender a fazê-lo” (pp.35-36).

Os “atos de reflexão e conhecimento”, mencionados pelo autor de As Crônicas de Nárnia, é o que ele chama de inferências. Para Lewis, é incoerente a tentativa do Naturalista em construir “uma história da evolução da razão”, pois no sistema fechado de causa e efeito proposto pelo Naturalismo segue-se — à alegação inicial acerca da impossibilidade de saber “‘exatamente como a seleção natural transform[ou] o comportamento mental sub-racional em inferências que levam à verdade’” — a seguinte “inferência”: “Entretanto, temos certeza de que isso, de fato, aconteceu. A seleção natural destina-se a preservar e aumentar o comportamento útil. Descobrimos também que o nosso hábito de inferir é, na verdade, útil e, sendo assim, deve conduzir à verdade’” (p.39). A esse respeito, ele diz que mesmo sem o perceber, a “própria inferência está em julgamento, isto é, o Naturalista deu uma explicação daquilo que julgávamos ser nossas inferências, o que sugere que elas são de modo algum verdadeiros insights. Tanto nós quanto ele queremos ter certeza. E essa certeza restabelecida revela-se mais uma inferência (‘se é útil, então deve ser verdadeira’), como se esta não estivesse, uma vez que aceitemos sua hipótese evolucionária, sob a mesma suspeita que as demais deduções” (Ibid.). Nesse exemplo de incoerência vejo, mal comparando, o mesmo problema de palestrantes de educação que ao falar sobre didática enxovalham o método expositivo através de uma preleção! Mesmo reconhecendo que em termos práticos — “calcificar um osso, construir uma ponte e fazer um foguete espacial” — tanto o Naturalista como o Sobrenaturalista valoriza a razão ou o comportamento racional, mas que “quando partimos para a especulação e tentamos obter uma visão geral da ‘realidade’, acabamos por nos envolver em disputas infindáveis, inúteis e provavelmente apenas verbais de um pensador” (p.40), Lewis afirma que a utilização da razão de forma especulativa é menos quimérica para o teísta do que para o Naturalista. Isso porque, segundo ele, o teísta “não está comprometido com a visão de que a razão é um desenvolvimento comparativamente recente, modelado por um processo de seleção que só pode escolher o que é biologicamente útil. Para ele, a razão — a razão de Deus — é mais antiga que a Natureza e dela deriva a ordem natural que, sozinha, nos capacita a conhecê-la. Para ele, no ato de conhecimento a mente humana é iluminada pela razão Divina. Ela é libertada, na medida necessária, do imenso vínculo da causalidade não racional; é livre da necessidade de determinar esse vínculo pela verdade conhecida. E os processos preliminares dentro da Natureza que conduzem a essa libertação, se é que existe algum, têm exatamente esse objetivo” (p.41).

Ao argumentar “que o pensamento racional não faz parte do sistema da Natureza” (p.49), o autor irlandês o faz pela verdade “que tal ato, para ser o que alega ser — e se não for, todo o nosso pensamento perderá o crédito —, não pode consistir simplesmente numa exibição, num dado espaço-tempo desse sistema de eventos total, e em grande medida irracional do que chamamos ‘Natureza’. Ele precisa se libertar dessa cadeia universal para ser definido por sua real essência” (pp.41-42). Isso porque a assunção de que o pensamento racional depende do irracional, “enfraquece a credibilidade do pensamento”, ou seja, crer que a “Razão [é] oriunda da não-razão” faz com que todo o “pensamento [seja] posto em dúvida” (p.49). Assim, Lewis conclui que “é óbvio que mais cedo ou mais tarde teremos de admitir uma Razão que exista absolutamente por si mesma. O problema é se você ou eu podemos ser essa Razão auto-existente” (Ibid.). Aqui entra a diferença crucial entre Naturalismo e Sobrenaturalismo, pois com a expressão “Sobrenatural”, Lewis refere-se a “algo que invade ou é acrescentado ao grande acontecimento interligado no espaço e no tempo, em vez de simplesmente surgir dele” (p.258). Dessa maneira, a ideia de geração espontânea, ou da “existência por si mesma” da Razão, segundo Lewis, significa justamente o “tipo de existência que o Naturalismo atribui ao ‘espetáculo completo’ e o Sobrenaturalismo atribui a Deus. Por exemplo, o que existe por si mesmo deve ter existido desde a eternidade, porque se algo mais pudesse fazê-lo começar a existir então não existiria por si mesmo, mas por causa de outra coisa” (pp.49-50). É desnecessário dizer que tal exercício retroativo não tem fim a menos que se resolva tomar partido por uma das opções, ou seja, a Naturalista ou a Sobrenaturalista. C. S. Lewis, porém, argumenta que a decisão pelo Naturalismo colocaria sub judice a própria dialética racional empregada nesse exercício. Sua conclusão é que se, de fato, creditamos à nossa razão a capacidade de apreender a realidade e assim produzir ciência, é preciso conceber uma “mente cósmica” que, por sua vez, apenas “nos ajudará [no entendimento de nossa origem] se a colocarmos no início, se partirmos do pressuposto de que ela é não o produto do sistema total, mas o Fato básico, original, auto-existente, que existe por iniciativa própria” (p.53). Ocorre que, para o autor, “admitir esse tipo de mente cósmica é admitir um Deus fora da Natureza, um Deus transcendente e sobrenatural” (pp.53-54). Assim, tal “caminho, que parecia oferecer uma saída, leva-nos de volta ao ponto de partida” (p.54).

Uma vez que a formação de Lewis, como ele mesmo diz, baseava-se em uma “educação filosófica, e não científica” (p.27), à proposição da nova física que emergia em sua época substituindo o sistema newtoniano, a qual afirma que não há como prever o movimento das partículas, sua reação não poderia ser outra senão um completo ceticismo, pois, em sua ótica, para a ciência progredir (e essa é “a sua glória”, dizia ele), é necessário que a Natureza obedeça a um sistema previsível que encontre conexão na Mente Criadora e em nossa própria mente. A crença na razão traduzida no positivismo científico diz exatamente isso: Haverá um progresso linear que culminará no domínio total da natureza e de toda a realidade. É esse o ideal da modernidade. Mesmo com toda a sua crença na capacidade da razão e com inferências brilhantes e argutas, C. S. Lewis era suficientemente lúcido e cuidadoso para concluir advertindo: “Não afirmo que a tese da criação da Natureza por Deus e a existência dele possam ser rigorosamente provadas, mas me parecem extremamente prováveis, tão prováveis que qualquer pessoa que aborde a questão com a mente aberta não defenderá com seriedade outra hipótese. [...] Todas as evidências apontam nessa direção, e se tentamos acreditar em outra coisa surgem dificuldades de todos os lados. Desconheço uma teoria filosófica que seja um avanço radical comparável às palavras de Gênesis: ‘No princípio Deus criou o céu e a terra’. Digo ‘radical’ porque a história de Gênesis, como disse Jerônimo, é contada em forma de ‘poesia popular’ ou, como diríamos hoje, em forma de lenda ou conto popular. Entretanto, se a compararmos com as lendas de outros povos sobre a Criação — com todos os aqueles absurdos encantados sobre gigantes que precisam ser destruídos e dilúvios cujas águas precisam baixar, trazidos à existência antes da Criação —, a profundidade e a originalidade da lenda hebraica logo serão evidentes. A ideia de criação, no sentido estrito da palavra, é perfeitamente compreendida” (p.57). A lição que Lewis nos ensina, é que tentar provar cientificamente o criacionismo, ou seja, como uma teoria, é algo que deve ser precedido pela demonstração indiscutível de que Deus existe. Uma vez que modernamente reconhece-se que a razão não pode provar a inexistência divina e também a sua existência, qual seria o papel do Intelligent Design

Antes de tratar da questão é preciso esclarecer que há divergências acerca do que realmente significa o ID. No primeiro capítulo da obra Fé cristã e pensamento evolucionista, um dos organizadores, Alfonso Garcia Rubio, afirma que em “contraposição a um ‘evolucionismo’ agnóstico ou até confessadamente ateu, os partidários do Intelligent Design aceitam a visão evolucionista, defendendo, ao mesmo tempo, a existência de um princípio organizador, de uma Mente inteligente, atuando no universo desde o seu início e dotando-o de sentido” (p.21). O mundialmente conhecido Francis Collins, um dos diretores do Projeto Genoma, em A Linguagem de Deus, apesar de ter uma visão declaradamente evolucionista teísta (renomeada por ele de “BioLogos”, p.209), e de elencar falhas e inconsistências no ID tanto científicas quanto teológicas (pp.193-200), diz que “como geneticista, biólogo e pessoa que crê em Deus, esse movimento merece sérias reflexões” (p.189). Collins diz que “apesar de o ID ser apresentado como teoria científica, é justo afirmar que não nasceu da tradição científica” (p.190). Tal assertiva é algo que o próprio criador do Movimento do Projeto Inteligente, Phillip Johnson, reconhece, pois a sua proposta (já referida acima por Nancy Pearcey) é fazer com que se rompa (com a “Cunha”) a perspectiva materialista ou naturalista (a “tora”) de que o tudo ou o todo existe como “produto de um processo evolutivo, não-dirigido e sem um propósito definido” (Ciência, intolerância e fé, p.16). Com o objetivo de dar um enfoque científico ao Movimento, posteriormente juntaram-se a Johnson, o biólogo Michael Behe e o matemático William Dembski. Esses, apesar de reconhecerem que por causa da complexidade que existe nas coisas há um planejador, não afirmam, diz Collins, “quem poderia ter sido esse planejador”. Não obstante, acrescenta Collins, “a perspectiva cristã da maioria dos líderes desse movimento sugere que essa força desconhecida viria de Deus em pessoa” (p.193). A diferença fundamental da proposta do diretor do Projeto Genoma em relação ao ID, é que “o BioLogos não se pretende uma teoria científica. Sua verdade só pode ser testada pela lógica espiritual do coração, da mente e da alma” (p.210).

A verdade é que todos começam de um ponto. Seja admitindo que tudo não passa de um processo cego e impessoal de “geração espontânea”, seja acreditando que o tudo ou o todo é fruto de um Criador. Assim, com base no exercício reflexivo empreendido até aqui, penso que o papel do Intelligent Design (para benefício autocrítico da própria teoria da evolução!) é concentrar-se, nas palavras de Collins, na demonstração das “deficiências percebidas na teoria evolucionária”, ainda que no final o objetivo seja “justificar a posterior complexidade extraordinária da vida” (p.189). Não obstante o criador do Movimento do Projeto Inteligente ser consensual com a inferência de C. S. Lewis de que “a inteligência é um fenômeno verdadeiro que pode ser cientificamente identificado e que não pode ser reduzido a causas materiais” (Ciência, intolerância e fé, p.17), de sua parte existe uma disposição autocrítica, pois como ele afirma na mesma obra, a “Cunha” é um movimento informal, intelectual e não confessional (pp.17,19) que “não tem um credo oficial ou uma declaração de fé” (p.19). Assim, em seu “estágio inicial”, diz o mesmo autor, “a pergunta certa [a ser feita é] se a ciência e o naturalismo são realmente a mesma coisa, ou se a evidência científica pode estar se afastando das respostas materialistas. Se alguém acha que essa é uma boa pergunta e que merece uma investigação justa, ele está seguindo do nosso lado — mesmo que essa pessoa pense que a ciência naturalista acabe solucionando os problemas e oferecendo respostas que vão diminuir ainda mais o valor da crença de que Deus teve papel ativo na criação. Os que discordam da nossa pergunta não são nossos inimigos. Pelo contrário, fazem parte essencial do diálogo, para ajudar-nos a verificar se estamos testando nossas próprias idéias como deveríamos. Se nós, que fazemos parte da Cunha, temo um inimigo, não são aqueles que estão em oposição aberta e sincera contra nossas propostas, mas sim os ofuscadores — os que resistem a qualquer definição clara de termos e questões, que insistem em que as organizações científicas devam ser obedecidas sem questionamento, e que se contentam em encobrir as contradições lógicas com concessões superficiais” (pp.19-20). A lúcida posição de Johnson fez-me lembrar da do pastor e psicanalista suíço Oscar Pfister que, em uma de suas correspondências a Freud, depois de ler uma brochura do último com duras críticas à religião, disse: “Um adversário de grande capacidade intelectual é mais útil à religião que mil adeptos inúteis” (Cartas entre Freud e Pfister [1909-1939], p.143). Daí porque o caminho do diálogo é sempre mais interessante que o da discussão infrutífera que ambiciona a posse do discurso “dominante-dominador”.

* Apesar dessa minha conclusão, Nancy Pearcey diz em sua obra Verdade Absoluta, que no “fim [C. S. Lewis], abandonou o materialismo e aceitou o idealismo filosófico, acompanhado pelo panteísmo, no esforço sério de reunir os dois reinos contraditórios que ele denominou ‘razão’ e ‘romantismo’” (p.136).

 

Não perca a última parte desse texto na próxima coluna.

4 comentários

Ader

Quando Deus todo poderoso cheio de majestade e de Gloria criou o homem, o Senhor o dotou de muita inteligência, e de intelecto etc, pois o criou a sua imagem e semelhança, sem se esquecer que ali estavam o Pai o Filho e o Espirito Santo, naquele momento singular e impar, então homem foi feito do barro e recebeu o sopro da vida e o Livro do Gênesis nos relata que Ele o Deus todo poderoso deu a Adão a responsabilidade de dominar e domine sobre...... e deu até uma adjutora para Adão e Adã

Marcelo de Oliveira e Oli

Este produto da história é explicável em todos os tempos? Me parece que não. O que me parece é que a razão como um "ser onipotente" torna-se obsoleta para explicar os mistérios da vida.

Marcelo de Oliveira e Oli

A história mostra que não. Concordo com a ideia central do seu texto: todas as tentativas de explicar a existência ou não de Deus é infrutífera, pois a fé, o desconhecido, cientificamente é inexplicável. Mas as manifestações de fé ocorrem como o produto da história. (continua)

Marcelo de Oliveira e Oli

Retornamos à velha pergunta: o que é Apologética? É se colocar acima do outro pela "força" e "violência"? É promover um "espírito belicoso" entre os promotores da fé? Estas eram as propostas dos antigos apologetas? (continua)

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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