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Pr. César Moisés

Pr. César Moisés

Assuntos relevantes em discussões infrutíferas

Sex, 07/12/2012 por

Pode não parecer, mas assuntos relevantes apequenam-se em discussões infrutíferas. Se a proposição aparecer nos termos colocados na indagação acima, eles não somente apequenar-se-ão, mas algo bem pior acontecerá: eles se tornarão instrumentos de dominação, discórdia e podem motivar até mesmo uma guerra! Jurando estar com a verdade ou de estar defendendo-a, Paulo (sim o apóstolo!), perseguiu, surrou e, se não matou com suas próprias mãos, ao menos mandou que fizessem ou condescendeu com o assassinato de inocentes (At 8.1-3; 9.1,2). A tragédia é pensar que o “doutor dos gentios” fez todas as maldades, inspirado pelo zelo mais religioso, sincero e, acima de tudo, absolutamente convicto de que estava certo. Ser sinceramente equivocado não é algo incomum. C. S. Lewis, disse certa vez que “De todas as tiranias, aquelas exercidas sinceramente para ‘o bem’ de suas vítimas podem ser as mais opressivas. Seria melhor viver sob barões ladrões do que sob ‘onipotentes’ metidos à moralidade. A crueldade do barão pode, por vezes, adormecer, e a sua cobiça pode em algum momento ser saciada; mas aqueles que atormentam-nos para ‘o nosso próprio bem’ vão nos atormentar sem fim, pois fazem isso com a aprovação da própria consciência”. Jesus disse certa vez que alguns matariam aqueles que nEle cressem acreditando estar prestando um “serviço a Deus” (Jo 16.2). Seria melhor que esses agissem conscientes de seus erros do que instruídos por zelo religioso ou convicção ideológica. Consciente do erro é possível haver arrependimento, mas se o verdugo estiver convicto e certo, quanto mais mal fizer, mais verá a si mesmo como alguém cumpridor de seus deveres!

Tempos atrás, ao ler o texto “Os Darwinistas estavam errados”, do blog Teoria de Tudo, assinado pelo jornalista de ciência, Rafael Garcia, e hospedado no sítio da Folha Online, tive a impressão de que ali estava um típico texto da “tirania do bem”. As expressões utilizadas pelo colunista para referir-se ao que ele classificou como “praga criacionista”, “tática de guerrilha dos grupos criacionistas” e “turba criacionista”, não combinam com a defesa do saber erudito e com a civilidade que ele parece querer instilar. Idiotizar e/ou tornar medíocre não é privilégio da religião. Qualquer ideologia, ponto de vista, teoria (inclusive científica) que não se permita ser questionada, estanca o desenvolvimento e a evolução do saber, além de tornar-se um instrumento de dominação que visa avaliar o outro pela ética-umbilical-individualista. Ai de quem não pensar igual, ler na mesma cartilha ou não aplaudir a argumentação do establishment. Contudo, para ser fiel ao próprio espírito científico é preciso não dobrar-se, mas questionar. Quanto ao Evangelho — o novo tempo trazido por Jesus Cristo e a sua mensagem do Reino de Deus — é algo que não é propriedade de nenhuma denominação. Não está a serviço da dominação, da opressão e da aniquilação do outro. A virulência do jornalista deve-se talvez ao comportamento separatista de muitos que erroneamente pensam estar seguindo o Evangelho. É preciso reconhecer, a postura do jornalista iguala-se a de muitos apologistas cristãos que, alegando uma defesa de Deus (como se Ele precisasse e eles pudessem!), são igualmente belicosos, indelicados, donos da verdade, tendo um comportamento que em nada se parece com o de Jesus Cristo, não tendo nenhuma correlação com o espírito do Evangelho.

Extremamente comum nos Estados Unidos, parece que o embate entre criacionistas e evolucionistas finalmente está chegando ao Brasil. Além do texto do jornalista Rafael Garcia, na edição de novembro da versão brasileira da Scientific American, deparei-me com uma matéria sob o título “O conflito criacionista e evolucionista no Brasil” (Ano 11, Edição n° 126, pp.78-79). Assinado por quatro pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina, o texto tem como subtítulo: “Formação científica insuficiente explica aceitação de ambas as interpretações entre estudantes e professores do ensino fundamental no país” (p.78). Na introdução os autores dão o tom que orientará as linhas que seguem. De forma retórica, questionam: “O avanço obtido pelo conhecimento científico é capaz de modificar as concepções de origem e evolução da vida na sociedade?”, e respondem: “A resposta a essa pergunta parece estar longe da que os homens de ciência gostariam” (p.78). A imagem que a resposta evoca, faz com que imaginemos a discussão polarizada tendo apenas dois lados: de um, homens de ciência e, do outro, homens de religião; de um, homens inteligentes e, do outro, homens ignorantes; de um, homens de saber e, do outro, homens de obscurantismo e assim por diante. E isso não é interpretação minha, o que vem na sequência demonstra que, infelizmente, não entendi errado: “Geralmente, a rejeição ao evolucionismo está relacionada a facções fundamentalistas existentes em diferentes religiões” (p.78).

Se não fosse pela ressalva do “geralmente”, seria possível dizer que eles generalizaram. Como o texto está classificado na seção “filosofia da ciência”, passa despercebida ao leitor menos avisado que a discussão é mais ideológica que científica, mais uma afirmação de poder e influência que de saber e evidência. Alinho-me a Alister e Joana McGrath que, de forma honesta, admitem que “a natureza pode ser interpretada de modo teísta ou ateísta — mas ela não impõe nenhum deles” (O delírio de Dawkins, p.48). Mais à frente, os mesmos autores arrematam: “A questão é simples: a natureza está aberta a muitas interpretações legítimas. Ela pode ser interpretada, entre outras, de forma ateísta, deísta e teísta, mas não exige ser interpretada por nenhuma delas. Um ‘verdadeiro’ cientista não precisa comprometer-se com nenhuma visão religiosa, espiritual ou anti-religiosa específica do mundo” (p.63). Para esse tipo de discussão, os que me leem sabem que, invariavelmente, utilizo referências produzidas por não cristãos. Já o faço para que não haja uma desconfiança em relação a honestidade teórica ou intelectual. Nesse caso, entretanto, acho interessante a forma como o casal aborda o tema (recorrentemente tratado por Richard Dawkins e outros), dizendo que a diferença, em termos de evidência científica, entre religião e visão de mundo é algo muito tênue e impreciso, pois a visão de mundo “consiste num modo abrangente de ver a realidade, na tentativa de compreender seus vários elementos sob uma ótica única e ampla” (p.81). Em outro momento, eles afirmam que “toda visão de mundo — secular ou religiosa — acaba caindo na categoria de ‘sistemas de crenças’”, ou seja, isso acontece “precisamente porque” nenhuma delas “pode ser provada” (p.97). O já citado C. S. Lewis, disse décadas antes, em sua obra Milagres, que a questão sobre como o universo funciona e veio a existir — se de forma naturalística ou miraculosamente falando — depende da “Metafísica que defendemos” (p.162). Lewis diz isso porque há diferentes tipos de metafísica, e esta, nas palavras de Vattimo, nada mais é que “qualquer tipo de crença em uma ‘verdadeira’ essência da realidade” (Diálogo com Nietzsche, p.138). 

Não nos enganemos: Em qualquer consideração, nossos preconceitos e opiniões chegam primeiro. A maior parte do que se discute, não é porque não se tem a resposta. É justamente o oposto! Discute-se para se autodefender. Considerando a questão do ponto de vista do próprio conhecimento, a opinião mais sensata é que não vale a pena discutir com quem já possui todas as respostas. Acontece, porém, que o assunto discutido não fica no nível do debate privado e da escolha pessoal, mas ganha as salas de aula com ares de fato. E nessa questão, em particular, sou da opinião de Nietzsche: “[...] não há fatos, só interpretações” (A vontade de poder, p.260). O fato inegável é que há o tudo em vez do nada (uma variação da pergunta pré-socrática e fundamental da metafísica: “Por que existe o Ser em vez de Nada?” ou ainda como questionou Heidegger em 1929 no texto Que é Metafísica?: “Por que existe afinal ente e não antes Nada?”, Conferências e Escritos Filosóficos, p.63). Existimos e estamos nesse exato momento indagando acerca de um assunto que, seja para quem for, depende de sua crença e não de evidência. Já disse em outros textos, o fato é que existe o tudo, já as interpretações a tal realidade podem ser de várias vertentes. As explicações que são oferecidas para responder o problema do tudo são de origem ideológica e filosófica. “Isso”, afirmam Alister e Joana McGrath, “não impede ninguém de defender uma visão de mundo e”, completam, “de fazê-lo com total integridade intelectual” (p.97).

Isso deve ser assim seja para quem for, não obstante, os autores da matéria sobre o antagonismo entre criacionistas e evolucionistas, acusam que nas “últimas décadas, em alguns países, grupos criacionistas vêm modificando suas estratégias a fim de conquistar novos adeptos ou simplesmente burlar questões legais relacionadas ao ensino do criacionismo em sala de aula” (p.78). Como exemplo eles citam “o aparecimento do intelligent design (ID) (desenho inteligente)”, surgido nos “Estados Unidos, no início da década de 90” (Ibid.). O que me causa estranheza é o fato de os pesquisadores desconhecerem que o ID não é criacionismo. Algo que escrevi há mais de seis anos quando ainda atuava baseado em uma noção racionalista que pretendia provar cientificamente a existência de Deus e afirmei, à época, que o ID era, inclusive, um perigo para o criacionismo (revista Reposta Fiel, Ano 5, n°20, Junho a Agosto de 2006, pp.30-32), pois ele era, no mínimo, uma forma de evolucionismo teísta e, no máximo, panteísmo. Ainda naquele tempo disse que o “criacionismo não é uma teoria” (p.32), ao passo que (nos termos que utilizei) “o evolucionismo — tanto o darwinista quanto o teísta — bem como o Intelligent Design são apenas teorias” (Ibid.).

Após a crítica ao ID, como exemplo, os autores enumeram alguns países em que a teoria da evolução é o pensamento quase majoritário e outros onde os números apontam a sociedade dividida entre esta e uma visão parcial ou completamente criacionista. Eles dizem então que no “Brasil a situação não é muito diferente”, ou seja, dos países em que a teoria da evolução não possui total credibilidade. Os autores citam uma “pesquisa encomendada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) [que] mostrou que 33% dos brasileiros creem que o ser humano foi criado por Deus há cerca de 10 mil anos, enquanto 54% aceitam que os humanos surgiram há milhões de anos, mas por um processo dirigido por Deus” (p.78). Os pesquisadores da UEL (Universidade Estadual de Londrina), afirmam que 89% dos entrevistados “concordam que o criacionismo deva ser ensinado nas escolas e 75% acham que essa concepção deve substituir o evolucionismo em sala de aula” (Ibidem). A fim de demonstrar o que eles veem como o perigo de um retrocesso na educação, os autores falam acerca dos grupos criacionistas que existem no país (Sociedade Criacionista Brasileira, desde 1972; Associação Brasileira de Pesquisa da Criação, desde 1979 e o mais recente, o Núcleo Brasileiro de Design Inteligente) e concluem: “Apesar de o movimento criacionista brasileiro não ser tão forte como o americano, não pode ser subestimado” (p.79). 

É preciso sublinhar o “não pode ser subestimado”, pois isso significa que há um sinal de alerta, uma ameaça que está surgindo e precisa ser contida. O grupo de pesquisadores revela que nos últimos anos tem recolhido “a opinião de estudantes universitários e de professores do ensino fundamental e médio sobre questões ligadas à origem do Universo, à vida e à evolução das espécies”. O resultado, segundo eles, entre os estudantes “indicaram que a aceitação e/ou rejeição das teorias pertinentes à origem do Universo e da vida e sobre a evolução biológica estão relacionadas a fatores como grau de instrução dos pais, renda familiar e/ou a orientação religiosa”. Os pesquisadores observaram ainda “que, ao menos em parte, a aceitação dessas teorias científicas depende da compreensão que os estudantes têm da metodologia científica”, ou seja, “ela não é completamente compreendida por uma parte significativa deles”. A pesquisa ainda revelou através de “dados preliminares obtidos junto a professores de ciências e biologia do ensino fundamental e médio [...] que 66% deles concordam que o criacionismo também deva ser abordado em sala de aula como uma teoria alternativa ao darwinismo”. A conclusão do grupo da UEL é que esses “resultados sugerem que, apesar de todo avanço na divulgação da ciência, estudantes universitários e professores parecem não compreender o que diferencia uma teoria científica de uma concepção religiosa” (p.79). Nessa discussão, entre teoria científica e concepção religiosa, é preciso atentar para a verdade de que há pouco fato e muita crença e, como dizem Alister e Joana McGrath, nossas “crenças podem se mostrar justificáveis, sem que isso demonstre que estejam comprovadas” (p.36).

O casal McGrath pertence à universidade de Oxford, mesma instituição de Dawkins e, apesar de cristãos, não se trata de dois fanáticos ou fundamentalistas religiosos. Acerca desse tema, o casal afirma não considerar essa “uma questão particularmente difícil ou obscura”, pois os “filósofos da ciência já perceberam que muitas teorias científicas tidas hoje como verdadeiras podem ser rejeitadas no futuro, à medida que surgirem outras provas ou se desenvolverem novas interpretações teóricas” (p.37). Em outros termos, completa o casal, não “há problema, por exemplo, em crer na teoria da evolução de Darwin como a melhor explicação das evidências disponíveis no momento, mas isso não significa que esteja correta” (Ibidem). A essa argumentação eles citam o próprio Dawkins, quando este disse “em O capelão do Diabo, p.148: ‘Temos de reconhecer a possibilidade de que novos fatos venham à luz, forçando nossos sucessores do século XXI a abandonar o darwinismo ou a modificá-lo até que ele se torne irreconhecível’” (Ibidem). 

Foi exatamente o que escrevi ainda em 2005 em O Mundo de Rebeca. Falando acerca do abandono do darwinismo por parte de alguns cientistas, citei a entrevista do historiador franco-americano, Jacques Barzun (falecido recentemente — 25 de outubro de 2012 — aos 104 anos) nas “páginas amarelas” da revista Veja (Edição 1.746, de 10 de abril de 2002), ao ser interrogado sobre o evolucionismo ele disse: “A idéia da evolução das espécies já circulava 100 anos antes dele [Darwin]. O que Darwin fez foi propor um mecanismo para a evolução, a célebre idéia da seleção natural. Ora, se esse mecanismo realmente funciona como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur, na França, disse-me que ninguém mais lá dentro aceitava ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas que o desenvolvimento da ciência tem posto em questão vários postulados da cartilha darwinista, algo que passa despercebido por quem não está enfronhado nas discussões” (p.129).
 
Continua na próxima coluna.

3 comentários

Francisco Sulo

Boa tarde, pastor, Gratificante saber como a erudição de certos cristãos nos inspira a permanecer na busca pela harmonia ou prevalência dos elementos cristãos sobre os seculares - no momento reconheço necessitar de reaver em minha minha vida a prevalência dos primeiros. Por outro lado, me chamou à atenção sua referência à renúncia a pretender "... provar cientificamente a existência de Deus". Neste contexto, responda-me, por favor, optou por uma abordagem mais intuitiva? Ou o que? Obrigado.

Nivaldo de Jesus Moreira

pastor Cesar aqui é o pastor Nivaldo, meu telefone fixo é (67) 3479 2304 Celular 9807 1792 Vivo sobre o assuntos que converssamos.

João Paulo Mendes

Pr. e professor César Moisés, paz do Senhor. Sempre que leio as postagens do Pr. aprendo algo diferente; aprendo a questionar os conceitos que tenho acerca da ideia da discussão acerca de Deus, da criação, da relação da fé com a ciência... Fato é que muitos dos conceitos e visões que aderimos não desenvolvemos de nós mesmos - óbvio-, mas em alguns casos nem fizemos esforços de raciocinarmos sobre eles e isto é necessário. Muitas vezes, parece que os cristãos também confundem

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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