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Pr. César Moisés

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Acharam a “partícula de Deus”. E agora? — Parte 2

Qui, 13/09/2012 por

Passada a euforia inicial do “achamento” do que, possivelmente, seja o bóson de Higgs, sinto-me particularmente à vontade para retornar ao assunto. Mesmo porque, somente agora os resultados de dois meses atrás foram publicados e, como se sabe, para finalidades acadêmicas e científicas, como diz César Grossmann, as descobertas “precisam ser publicadas em um periódico científico que faça uma revisão do trabalho antes de sua publicação definitiva. A partir da publicação, outros cientistas podem verificar as equações, os métodos, os dados obtidos e as conclusões, e verificar se realmente se trata de uma descoberta científica ou se a equipe cometeu algum erro, ou até ignorou alguma outra explicação para o fenômeno observado. Além disso, ainda existem trabalhos sendo feitos para confirmar se a nova partícula realmente é o bóson de Higgs” (Resultados da busca pelo Bóson de Higgs oficialmente publicados in HypeScience). O leitor pode conferir os textos dos laboratórios (ATLAS e o Compact Muon Solenoid (CMS)) que fizeram o anúncio em 4 de julho último, acessando o periódico de ciências Physics Letters B, localizando os textos “‘Observation of a new particle in the search for the Standard Model Higgs boson with the ATLAS detector at the LHC’ (‘Observação de uma nova partícula na busca pelo bóson de Higgs do Modelo Padrão com o detector ATLAS do LHC’) e ‘Observation of a new boson at a mass of 125 GeV with the CMS experiment at the LHC’ (‘Observação de um novo bóson de massa 125 GeV com o experimento CMS no LHC’)”.

É comum as pessoas evitarem textos como esse. Algumas por falta de interesse, outras por acharem algo irrelevante e muitas, que até apreciam o tema, acabam evitando a sua leitura por saberem da postura belicosa e “apologética” que permeiam textos com essa temática — principalmente quando produzidos por pessoas religiosas e não técnicas. Por tratar-se de um texto publicado na grande rede, pode ser que alguém chegue até aqui via Google ou outro site de busca: A esses advirto que não tenho essa postura e nem a aprecio. Por isso, siga em frente com a leitura.

É natural que haja empolgação em torno de um achado ou descoberta científica, ou ainda quando se confirma uma hipótese através da experimentação empírica. No caso em apreço, é preciso considerar que foram décadas de pesquisa, envolvendo os esforços de milhares de pesquisadores para se confirmar algo que só existia em uma equação matemática. Minimizar tal feito é algo deselegante e até desonesto. Por outro lado, desenvolver uma consciência histórica é uma medida prudente e cautelar. Isso significa entender que o entusiasmo e até certa “transcendência” que se segue ao ato do conhecer, do desvendar, da pretensão de chegar à verdade última como ambiciona a tradição “científica” que passou do mito ao logos, desde Parmênides, é uma característica essencialmente humana.

Do ponto de vista da física, por exemplo, o chamado Modelo Padrão (cujos elementos constitutivos — 12 partículas subatômicas — foram descobertos ou confirmados em sua quase totalidade, faltando praticamente apenas o bóson de Higgs), continuará sendo o paradigma para o desenvolvimento dos avanços nas pesquisas na área da física quântica. Ocorre, entretanto, que o Modelo Padrão pretende ser a esperança do que os cientistas sonham que é justamente “encontrar” (ou elaborar juntando com as demais?!) a teoria unificada que explique toda a realidade, ou seja, a “teoria do tudo”. Buscada por nomes conhecidíssimos como Einstein e Hawking, ela se mantém como a grande aspiração de grande parte da comunidade acadêmica. Conforme o próprio Stephen Hawking e Leonard Mlodinow disseram: “Desde Newton e, principalmente, desde Einstein, o objetivo da física tem sido descobrir os princípios matemáticos simples, do tipo imaginado por Kepler, e com eles criar uma teoria unificada de tudo, dando conta de todos os detalhes da matéria e das forças observadas na natureza” (O Grande Projeto, p.121). Na realidade, o Modelo Padrão seria uma possível explicação que corresponde a 4% do universo visível. Assim, apesar de haver motivos para se festejar, é preciso pensar em incríveis 96% que ainda restam para se “desvendar”. Por isso, volto a reafirmar que não estamos diante da instauração de um novo paradigma ou de uma nova revolução científica. Se houver a confirmação definitiva de que a partícula que foi encontrada nas trombadas do LHC em julho próximo passado seja mesmo o bóson de Higgs, a única coisa que se poderá fazer é ter quase “certeza” de que o Modelo Padrão poderá, de fato, ser utilizado como uma possível explicação definitiva do pequeno percentual do universo visível, proporcionando as bases para continuar a busca pela origem da vida e de tudo o mais que existe. Mas, na prática, nada muda, pois o Modelo Padrão — que é uma teoria — já é utilizado. 

Agora, em se tratando de teoria, é preciso atentar para a interessante visão de Edgar Morin acerca do fato de que uma “ideologia baseia-se numa teoria” que, continua o autor, por sua vez, “é um sistema de idéias que estrutura, hierarquiza, verifica o saber para descrever a ordem e a organização dos fenômenos que aborda. A teoria é, em seu princípio, aberta para o universo que descreve: colhe nele confirmação, e, se surgem certos dados que a contrariam, passa a fazer verificações (sobre os dados), revisões (sobre o seu próprio funcionamento) e modificações (sobre si mesma). Por isso, uma teoria é simultaneamente viva (ela faz trocas) e mortal (o real pode infligir-lhe um desmentido fatal)”. A princípio pode parecer ao leitor desatento que a reflexão de Morin é algo apenas elementar e não é nada que você já não tenha lido. Contudo, basta pensar que o francês inicia dizendo que a ideologia baseia-se numa teoria e que a paixão ideológica é capaz de qualquer coisa. E é aí que Edgar Morin arremata: “Uma teoria que se fecha para o real torna-se doutrina. A doutrina é a teoria que afirma que sua verdade está definitivamente provada e refuta todos os desmentidos do real. A doutrina-cidadela brinda seus axiomas, que então se tornam dogmas. Uma doutrina é, em princípio, inexpugnável. Mas as fortalezas inexpugnáveis sem dúvida acabam demasiado tarde, sucumbindo senão ao assalto do real, pelo menos ao desgaste do tempo” (Para sair do século XX, p.74).

Assim, para que o bóson de Higgs não se torne um dogma e, como disse Charles Finney, mergulhe a comunidade acadêmica em uma "imobilidade perpétua" (Teologia Sistemática, p.24), é preciso que os interessados pelo adensamento das questões, e pela continuidade da busca científica por respostas, não se contentem em reproduzir as notícias como se tudo já estivesse resolvido e que, definitivamente, apoiem o trabalho sério realizado pelos cientistas. “E quanto aos que creem que Deus criou o universo” — pode ser que alguém esteja perguntando. O que é que muda? Nada. A estes, basta aceitarem o fato de o mundo ter sido feito pela Palavra de Deus, e que as realidades visíveis derivam das invisíveis.

5 comentários

Urias oliveira

Apaz para todos! Hoje tanto no ensino médio como no acadêmico são passadas várias teorias como fatos provados cientificamente, que acabam por produzir ideologias que viram verdadeiros dogmas, como o evolucionismo. Esse erro acaba privando os jovens de um profundo questionamento e consideração de outras possibilidades que a própria ciência oferece.

Joabe

A Paz do SENHOR! Pastor, estive no congresso de EBD da CPAD, ouvi e gostei muito da plenária "Verdade Absoluta - A Verdade Cristã em uma era de descrença" ,do Pr Claudionor de Andrade. Peço que ,se não for disponibilizada para compra, seja colocada no Youtube, porque foi uma mensagem muito impactante, e creio que mais pessoas devem ouvir. Joabe

Julio César paranhos

Queria fazer uma pergunta: Esse articulista é formado em física para tratar desse assunto?

Marcelo de Oliveira e Oli

De acordo com a interpretação majoritária do livro de Josué, quando "o sol parou" o universo inteiro estagnou. Mas, hoje, sabemos que não é o sol que se move, mas a terra em torno do sol. E devido a esta constatação, a História denuncia como a Igreja sentenciou um homem por pensar diferente: a fogueira. Eis a injustiça cruel de quando fechamo-nos no dogma ― este criado pela tradição humana (Mt 15.1-20) ― e não olhamos para o real. M.O.O. Rio de Janeiro, RJ. agracadateologia

Marcelo de Oliveira e Oli

Caro César, Paz e Bem! Toda doutrinação é fechada em si mesmo. Ela perde a capacidade de olhar para os horizontes e dialogar com as novas possibilidades que aparecem num outro tempo da história humana. Na física, o cientista que insistir no louco caminho do não-diálogo e do não-contraditório, está fadado a passar vergonha. Em Teologia, Charles Finney denunciava que esse desastre era iminente – mas inadmissível para o teólogo que pensa. (Continua...)

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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