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Pr. César Moisés

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A desesperada crença científica no multiverso e a redefinição da ciência — Parte 2

Seg, 23/04/2012 por

A edição número 112 da revista Scientific American Brasil (setembro/2011), trouxe um artigo assinado pelo cosmólogo George F. R. Ellis, intitulado “O multiverso realmente existe?”. O multiverso, a ideia de que “bilhões de outros universos, cada um com sua física própria, existem lá fora, além de nosso horizonte visual” (p.31), transformou-se há pouco mais de uma década, na pedra de toque da discussão científica, cativou os cientistas e fez com que os proponentes do multiverso até mesmo passassem a redefinir, nas palavras de Ellis, “o que se entende por ciência” (p.32). Pessoalmente cético em relação a tal teoria, Ellis afirma que para “um cosmólogo, o problema fundamental com todas as propostas de multiverso é a presença do horizonte cósmico visual. O horizonte é o limite de distância que podemos enxergar, porque sinais viajando à velocidade da luz (que é finita) não tiveram tempo, desde o começo do Universo, de nos alcançar vindos de mais longe que isso. Todos os universos paralelos estão fora de nosso horizonte e permanecerão além de nossa capacidade de observá-los, agora e sempre, não importando o quanto a tecnologia evolua. De qualquer modo, eles estão muito distantes para influenciarem nosso Universo. Por isso, nenhuma das alegações que possam ser feitas pelos entusiastas do multiverso podem ser diretamente abordadas” (Ibidem). A conclusão de Ellis acerca dos universos paralelos, “é que nenhuma observação astronômica será, jamais, capaz de enxergá-los” (Ibid., p.31). 


Uma vez que o autor, em seu artigo, através da apresentação de sete argumentos coloca em xeque o entusiasmo dos cosmólogos acerca da teoria do multiverso, para tal interceptação ele, inevitavelmente, teve de se valer das bases mais antigas e convencionalmente estabelecidas para a ciência desde quando essa foi “modernísticamente” entendida como tudo aquilo que pode ser comprovado empiricamente. Assim, a despeito de os proponentes do multiverso defenderem que as “‘provas’ propõem que deveríamos aceitar a explicação teórica em vez de insistir em testes observacionais”, Ellis objeta dizendo que “testes como esses têm sido, até hoje, a exigência central do empreendimento científico e abandoná-los é um grande risco”. E completa afirmando que se “afrouxarmos a exigência de dados sólidos, enfraqueceremos a razão central do sucesso da ciência nos últimos séculos” (p.35). Não dá para, em nome da defesa de uma teoria absurda, jogar fora todas as descobertas científicas bem-sucedidas. Isto é, aceitar os argumentos dos proponentes do multiverso, fatalmente implicaria em desconstruir o método científico. Isso porque seria necessário admitir que existindo universos paralelos, provavelmente haja para cada um deles leis físicas diferentes das que existem em nosso próprio universo. Contudo, como é possível verificar tais leis se elas são desconhecidas dos padrões existentes? George Ellis destaca, por exemplo, um “fato notável sobre nosso Universo”, dizendo “que as constantes físicas têm exatamente os valores necessários para permitir estruturas complexas, incluindo seres vivos” (p.34). Para que tal raciocínio seja aplicado com mediana plausibilidade científica à questão do multiverso, é preciso pressupor a existência dos universos paralelos antes mesmos de ser possível verificar que eles existem! “Ou seja, o argumento assume o resultado desejado antes mesmo de começar”, diz Ellis, complementando: “Probabilidade é uma prova de consistência da proposta de multiverso, não uma prova de sua existência” (Ibidem).


A conclusão a que George Ellis chega a respeito do multiverso, é que tal questão é inconclusiva: “A razão fundamental para isso é a extrema flexibilidade da proposta: é mais um conceito que uma teoria bem definida. A maioria das propostas envolve uma miscelânea de diferentes ideias em vez de um todo coerente. O mecanismo fundamental para a inflação eterna não faz, por si mesmo, que a física seja diferente em cada domínio do Universo; para isso, ele deve ser acoplado a outra teoria especulativa. Embora elas possam ser combinadas, isso não é algo inevitável” (p.35). Só para se ter uma ideia da dificuldade da unificação das teorias científicas, Marcelo Gleiser, diz que “mesmo que você tenha uma explicação científica da origem do Universo, essa explicação científica é baseada numa série de suposições” (Conversa sobre a fé e a ciência, p.103). A fim de exemplificar, ele diz que para “escrever essa teoria [unificada], tem que usar a teoria da relatividade geral do Einstein, tem que usar o princípio da incerteza, tem mais a lei da conservação de energia e uma série de outros princípios que estão embutidos aí. É legítimo então se perguntar: de onde vem isso tudo, de onde vieram essas leis todas? Precisamos de uma teoria que descreva por que o nosso Universo tem as leis que tem, e não outras. E essa ‘teoria das teorias’ é algo muito distante no horizonte científico” (Ibid.). Gleiser conclui sua argumentação dizendo: “Hoje em dia nos perguntamos: ‘Esse Universo em que vivemos pode não ser o único Universo que existe.’ Se existem muitos Universos, precisamos de uma teoria que selecione, desses muitos Universos, este Universo. Essa metateoria que, de certa forma, mostra que, dos muitos Universos que existem, esse nosso Universo é um Universo especial, ainda não existe, e não sei — e ninguém sabe — como criar essa metateoria no momento” (p.104).


A grande pergunta é: Por que tal aglomerado de pensamentos é necessário? George Ellis responde apresentando a argumentação final dos defensores do multiverso: “não há alternativas melhores”. Assim, por “mais desagradável que os cientistas possam achar a proliferação de mundos paralelos, se esta é a melhor explicação, deveríamos aceitá-la. Além disso, se quisermos desistir do multiverso, então precisamos de uma alternativa viável. A exploração das alternativas depende de que tipo de explicação estamos preparados para aceitar” (p.35). Nesse ponto você já deve estar questionando: “‘Alternativa viável’ para quê?”; “Como assim: ‘depende de que tipo de explicação estamos preparados para aceitar’?”. Tais pensadores fogem da conclusão de que existe um Criador e que é possível haver um propósito para todas as coisas. Ou seja, como revela Ellis, os “cientistas propuseram o multiverso como maneira de resolver problemas profundos sobre a natureza da existência, mas a proposta deixa problemas fundamentais sem resposta. Todos os problemas que aparecem em relação ao Universo aparecem novamente em relação ao multiverso. Se o multiverso existe, ele veio à luz por necessidade, acaso ou propósito? Essa é uma questão metafísica que nenhuma teoria física pode responder, tanto para o Universo quanto para o multiverso” (Ibid.). 


Arrisco-me em dizer que, em última instância, o não encontro de vida em outros planetas, abrirá o precedente para postular que ainda não tivemos sucesso no contato com seres extraterrestres pelo simples fato de que eles não estão situados no horizonte cósmico visual, mas com certeza o estão nos universos paralelos! Contudo, a própria ideia de “universos paralelos” é uma incógnita tão grande quanto à HET (Hipótese Extraterrestre). Assim, o argumento é não somente tautológico, mas também dogmático e nada científico. Não obstante o desespero demonstrado pelos proponentes do multiverso, a grande oportunidade proporcionada pela cunha de tal argumento é uma fenda na crença popular e monolítica de que a ciência pode resolver todas as coisas. E mais, se para “fazer progresso” no campo científico, conclui Ellis, “precisamos manter a ideia de que os testes empíricos são o ponto central da ciência” e que, continua ele, para isso, “precisamos de algum tipo de contato causal com qualquer entidade que propusermos”, pois, “de outra maneira, não há limites”; então está muito clara a posição metafísica dos entusiastas da teoria dos universos paralelos. Porém, o desafio proposto a eles por George Ellis para “testar” a plausibilidade teórica do multiverso, parece favorecer ainda mais os teólogos que gostam de apoiar-se no racionalismo moderno para “provar” a existência de Deus: “A ligação pode ser um tanto indireta. Se uma entidade é inobservável, mas absolutamente essencial para as propriedades de outras entidades que são, certamente, verificáveis, podemos tomar a entidade como verificada. Mas então, o ônus de prová-la é absolutamente essencial para a teia da explicação. O desafio que coloco aos defensores do multiverso é: vocês podem provar que os universos paralelos invisíveis são vitais para explicar o mundo que observamos? E essa ligação é essencial e inescapável?” (Ibidem). 

           
Os proponentes do multiverso precisam responder aos questionamentos apresentados por Ellis. Caso a resposta seja negativa, a posição mais sensata e coerente é abandonar tal ideia. Se a resposta for positiva, será preciso então passar para outra fase decisiva dos testes: repetição ou reprodução, visando demonstrar empiricamente o fenômeno. George Ellis finaliza o seu artigo com um último questionamento-convite: “Como cético, acho que a contemplação do multiverso é uma excelente oportunidade de refletirmos sobre a natureza da ciência e sobre a natureza final da existência: por que estamos aqui?” (Ibidem). Nesse caso, a resposta inevitável é que não existe apenas um tipo de ciência, nem um único método científico. Por outro lado, ao se falar sobre a razão de estarmos aqui, abre-se a oportunidade de discutir teologicamente a questão do telos. Nesse caso, o conteúdo da fé será determinante como demonstração razoável (não racionalizável), da prática social e de princípio para o bem viver. Dessa forma, é possível que os entusiastas do multiverso desistam de construir uma metateoria absurda que nada promove axiologicamente falando e deixem que a ciência continue se ocupando do “como” e a religião do “porque”.

2 comentários

Júlio

Caros, vamos primeniro entender como funciona a ciência, só pra não se cometer os erros grosseiros do texto acima. Não existe tentativa nenhuma da ciência de contrariar a biblia ou qualquer outro livro de mitologia. A ciência busca racionalmente descrever o funcionamento da natureza (claro que com isso ela erra muitas vezes, porém a própria ciência tem a capacidade de se corrigir). O método científico funciona assim: existe um fenômeno atualmente não explicado (geralmente o fenômen

Alexandre Santos

Parece-me que a ciência está com a arma apontada para a própria cabeça, brincando de roleta russa, arriscando a matar-se. Tenho a impressão de ter lido na Bíblia, nas epístolas paulinas, (1 aos coríntios) "a sabedoria dos príncipes desse mundo, que se aniquila..." . A ciência é aniquilável e estão brincando com esta possibilidade.

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Perfil

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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